
Com a Primavera no Corao

Helen Bianchin


      Copyright: Helen Bianchin
      Ttulo original: Edge of Spring
      Publicado originalmente em 1979 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra.
      Copyright para a lngua portuguesa: 1981


      Digitalizado por: Afrodite






Resumo:

Matt parecia sincero, amoroso, mas Karen no podia acreditar. Ele era apenas um homem, e os homens eram todos falsos!

O casamento de Karen com Brad e aquela nica noite em que ela lhe pertenceu tinha deixado seu corao gelado para sempre. Como ele podia ter sido to cruel, a ponto
de destruir completamente as iluses de Karen, sua f nos homens? Brad j estava morto h seis anos, mas a alma de Karen permanecia adormecida e seu corpo nunca
mais tinha sido tocado por homem algum! Mas, talvez por causa da primavera que chegava agora na Nova Zelndia, seu esprito se inquietava. E a culpa era de Matt
Lucas. Por que, nas longas noites sem sono, ela pensava em Matt, se ele era um homem falso como todos?


      Captulo I

      - E voc, minha filha? O que voc fez de bom nas ltimas semanas? Ah, nada de muito importante. Trabalho, casa, trabalho, casa. Fora isso, levei Lisa algumas
vezes ao cinema.
      - Mais nada?
      - Pois . Mais nada. E voc, fez boa viagem?'
      - Eu pretendia sair logo depois do caf, mas Emily telefonou e no pude despedir-me dela na correria. Alm disso, no encontrei Simone  vista. Parece mentira,
mas essa gata sabe quando eu vou viajar e se esconde pela casa. Desta vez fui encontr-la no alto do telhado. Recusou-se terminantemente a descer de l, apesar de
todas as coisas gostosas que lhe ofereci. Foi preciso o jardineiro subir at l. Ela miava como se eu fosse abandon-la para sempre. Voc j imaginou? Em suma, perdi
uma hora com essa brincadeira.
      - Que horror! - exclamou Karen, com uma gargalhada. - Lembra aquela vez que Simone arranhou sua mo? Foi logo nos primeiros dias que chegou em casa.
      - Se lembro! Mas voc sabe de uma coisa? Eu no passo sem a companhia dela. Parece exagero dizer isso, mas s vezes ela me olha como se fosse uma pessoa...
      Grace tomou a servir a xcara de ch e acrescentou um pinguinho de leite e uma colherinha de acar.
      - Pois ...
      No silncio que se fez subitamente entre as duas, Karen pressentiu que a me ia abordar o eterno assunto do casamento.
      - As cartas que voc escreveu falam de tudo, menos das novidades que interessam.
      - Quais so as novidades que interessam? - perguntou Karen, fazendo-se de desentendida.
      - Os namorados,  claro!
      Karen torceu o nariz e deu um sorriso sem graa.
      - Por incrvel que parea, eu no tenho visto ningum ultimamente. Passo os dias inteiros em casa. Alm disso, no tenho com quem deixar Lisa, a no ser com
Brbara, quando  estritamente necessrio.
      - Eu sei como , mas voc precisa sair um pouco, minha filha. Voc no pode passar o dia inteiro enfurnada dentro de casa. Vai acabar doente. Afinal, voc
tem apenas vinte e cinco anos. Uma experincia desagradvel no significa que todas as outras sero iguais.
      - Eu fiquei traumatizada - disse Karen com uma risada.
      No adiantava discutir com Grace. O melhor, nesse caso, era concordar e mudar de assunto na primeira oportunidade.
      - Eu entendo. Mas uma mulher da sua idade precisa da companhia de um homem. Voc no pode viver sozinha o resto da vida porque foi infeliz no primeiro casamento.
      - A mulher precisa do homem como a terra precisa da chuva - comentou Karen com um risinho irnico. - Nesse caso, por que voc no casou de novo?
      Grace abaixou o rosto sem jeito.
      - Voc sabe muito bem por qu.
      - Ah, desculpe, me. Saiu sem querer.
      - Seu pai e eu tnhamos um relacionamento maravilhoso, construdo a partir de muitos anos de amor e convivncia... Dificilmente eu encontraria isso numa outra
pessoa.
      - Eu estou desiludida com os homens. Prefiro levar uma vida bem sossegada no meu cantinho. Lisa, por sinal, preenche minha existncia. Eu no sinto falta de
nada no momento.
      Grace deu um suspiro, chegou para a frente da cadeira e colocou a xcara vazia em cima da mesinha de centro.
      - Mudando de assunto: voc fez amizades no seu novo emprego?
      - Algumas. Infelizmente, os bons partidos esto todos comprometidos, se  isso o que voc quer saber.
      - No acredito!
      - Juro. O vice-diretor  um solteiro convicto. O gerente tem uma mulher linda e quatro filhos pequenos. E assim por diante. Na minha seo s trabalham mulheres.
Garotas, na maior parte, que s pensam em namorar. Os funcionrios da fbrica, por sua vez, entram e saem por um porto lateral e comem num restaurante prprio.
Em suma, no conheci nenhum homem interessante nesse novo emprego. - Karen deu um sorriso. - Ah, sim, ia me esquecendo. No fui apresentada ainda ao nosso presidente.
Ele viajou para a Europa e deve voltar no fim da semana.
      - Ele  solteiro? - perguntou Grace com os olhos brilhantes.
      - Acho que sim. A sala dele  no andar de cima e eu raramente vou l, a no ser em casos de extrema necessidade...
      Karen porm no contou  me que Mike Evans, um dos executivos da companhia, convidou-a diversas vezes para sair. Alis, ele costumava visit-la regularmente
antes do expediente, e no havia jeito de persuadi-lo de que ela no estava absolutamente interessada em seus programas. Karen no era mais criana e sabia perfeitamente
o que estava por trs dos convites de Mike. Primeiro, jantar num bom restaurante da cidade. Segundo, "Vamos tomar um drinque no meu apartamento?  logo ali". Terceiro,
"Voc no quer conversar na cama?  muito mais confortvel..."
      - Voc me deixa preocupada, filha. Eu gostaria de v-la casada.
      - Eu, hein? Uma vez foi o bastante.
      Karen foi salva do sermo materno pela campainha da porta que tocou nesse momento e interrompeu a conversa entre as duas.
      - Espere um instantinho, me, vou ver quem .
      Grace ajeitou-se na cadeira, passou os dedos para alisar os fios soltos no alto da cabea, e aguardou a volta da filha, embora estivesse com o ouvido atento
 conversa que vinha da porta da frente.
      - Brbara! Que surpresa agradvel. Estava falando de voc nesse minuto!
      - Bom sinal. Voc est ocupada?
      - Mame est a. Entre!
      - Eu posso passar outra hora, se voc preferir.
      - Que nada! Entre. Vou apresent-la a mame. Ela veio passar o fim de semana aqui. Lisa ia voltar com ela para aproveitar os feriados, mas mudou de idia na
ltima hora.
      - Eu passei rapidamente para lhe pedir um favor - disse Brbara, acompanhando Karen  sala de estar.
      - Voc quer que eu tome conta de Tnia?
      - No, no  isso.  um outro favor - acrescentou Brbara com um sorriso de mistrio.
      No momento em que as duas entraram na sala, Grace voltou-se para elas com um sorriso, como se estivesse surpresa com a chegada de Brbara.
      - Mame, eu queria apresentar uma amiga. Brbara e eu nos conhecemos h um ano, no jardim da infncia...
      Brbara caiu na gargalhada.
      - Explique  sua me que nossas filhas so da mesma idade.
      - Muito prazer em conhec-la - disse Grace, estendendo a mo bem tratada  amiga da filha. - Sente-se, pr favor.
      - Muito obrigada, mas eu estou s de passagem. - Brbara voltou-se para Karen. - O favor que eu queria pedir  o seguinte: Bruce no voltou de viagem, como
era previsto, e eu recebi um convite para ir a uma festa sensacional e no tenho companhia. Voc no quer ir comigo? A gente vai se divertir muito...
      - Mas  claro que ela quer! - interveio Grace, com animao.
      - Por favor, mame, sossegue. Deixe-me resolver minha vida sozinha.
      Karen, como sempre, no tinha a menor vontade de ir a festas, nem de conhecer ningum. Preferia ficar tranqilamente em casa, vendo televiso ou lendo um bom
livro.
      - Aproveite que eu estou aqui e saia um pouco com sua amiga, filha! - insistiu Grace, sem se dar por achada.
      - Vamos, Karen. Eu prometo que voc vai gostar.  num clube elegantrrimo e o servio  de primeira.
      Apanhada de surpresa pela sugesto da me, Karen ficou na dvida, sem saber o que dizer. No podia dar a desculpa de sempre, de que no tinha com quem deixar
a filha pequena. Brbara aguardava sua resposta com ansiedade.
      - Est bem, eu vou. A que horas voc vai sair, Brbara?
      - L pelas nove. Est bom para voc?
      - Est. Voc passa por aqui ou prefere que eu passe na sua casa?
      - Voc  quem sabe.
      - Bem, passarei pela sua casa s nove.
      - Combinado. - Brbara voltou-se para Grace. - Desculpe a correria, mas eu ainda vou ao cabeleireiro e ao supermercado, para fazer as compras da semana. At
mais tarde, querida. Muito prazer em conhec-la, Grace, e at outra vez.
      Karen acompanhou a amiga at a porta e voltou  sala com expresso pensativa. Fazia mais de cinco anos que no ia a uma festa e estava apreensiva e assustada
com o programa como uma adolescente que sai pela primeira vez com o namorado. Mas ela no era mais uma adolescente. Tinha vinte e cinco anos e era me de uma menina
de cinco.
      - Com que vestido voc vai?
      A pergunta da me acordou-a do devaneio.
      - No sei. Preciso escolher...
      - Posso ajud-la?
      - Vamos at o quarto ver como est o meu guarda-roupa...

      Em parte por sugesto de Grace, Karen acabou optando por um vestido de tafet brilhante que acentuava a cor de seus cabelos louros e lhe dava uma figura esguia,
etrea.
      - Que tal? - perguntou Karen - Grace, mirando-se no espelho.
      - Est perfeito. Esse vestido tem um caimento lindo. Combina muito bem com seu tom de cabelo.
      Depois da escolha do vestido, foi a vez da maquilagem. Karen pintou cuidadosamente os lbios e passou sombra azul nos olhos. Em seguida, apanhou o vestido
que estava pendurado no cabide e enfiou-o cuidadosamente pela cabea, tomando cuidado para no desmanchar o cabelo.

      A festa no clube era um acontecimento social muito mais importante do que Brbara tinha dado a -entender. Uma boa parte da sociedade de Auckland estava presente
aquela noite na manso suntuosa de dois andares cujo estilo arquitetnico lembrava a poca colonial nos Estados Unidos. O gramado que cercava a casa estava impecavelmente
aparado e a piscina olmpica, com holofotes poderosos nas paredes de ladrilho azul, sobressaa-se da paisagem por seu brilho intenso. Em volta da piscina havia barracas
coloridas, armadas no centro de mesas de madeira branca, bem como cadeiras de lona e espreguiadeiras.
      Ningum, porm, se aventurava a entrar na piscina quela hora da noite, especialmente porque a temperatura cara sensivelmente  tarde. Alguns convidados,
no entanto, passeavam de braos dados pelo jardim e beijavam-se nas sombras das rvores. Outros danavam no salo de festa ou provavam os deliciosos salgadinhos
que estavam servidos na mesa imensa que ocupava toda uma parede da sala. Havia um movimento incessante de casais. Os garons corriam de um lado para o outro do salo
com as bandejas de bebidas levantadas no alto.
      Karen circulou algum tempo pelas diversas salas do clube, ao mesmo tempo fascinada e ligeiramente intimidada com a agitao que reinava em toda a parte. Alguns
convidados cruzavam 'por ela, com copos de bebida nas mos, voltavam-se e balanavam as cabeas, com um ar de quem entende do assunto. Outros conversavam nos cantos
em pequenos grupos e comentavam em voz baixa, educadamente, as qualidades de um corpo ou o contorno de um busto.
      De repente, Karen sentiu um arrepio estranho na espinha, como se estivesse sendo observada. Voltou-se com um gesto brusco encontrou dois olhos castanhos que
a observavam fixamente de um canto da sala.
      O homem era alto, moreno, de ombros largos, e estava vestido com um terno marrom de um feitio impecvel. Havia uma aura de masculinidade que transpirava de
todas as fibras do seu corpo robusto. As feies msculas estavam esculpidas com preciso e transbordava dele um ar de segurana que chegava a ser irritante.
      Quando o homem se aproximou com passos indolentes, como se ela estivesse  sua espera, Karen percebeu com nervosismo que de fato ela estava imobilizada ali
e que no poderia fugir nem mesmo se quisesse, tal o fascnio que os olhos castanhos exerceram sobre sua imaginao.
      - Posso lhe oferecer um cigarro?
      - Muito obrigada. Eu no fumo.
      Ele apontou o copo vazio que ela segurava na mo.
      - Uma outra bebida?
      - J bebi bastante.
      A insistncia irritou-a. Ela queria que o homem fosse embora e a deixasse em paz. O clima de tenso que havia entre os dois exasperava seus nervos sensveis.
      Em vez disso, contudo, ele continuou parado diante dela; observando-a demoradamente, at que os olhos castanhos se fixaram na boca rosada.
      - Acho que no fomos apresentados ainda. Caso contrrio, eu me lembraria.
      Ela fitou-o no fundo dos olhos com expresso glacial.
      - Eu me chamo Karen Ingalls.
      - Muito prazer em conhec-la. Eu me chamo Matt Lucas. - Ele estendeu a mo e segurou-a pelo pulso. - Vamos danar?
      -  um convite ou uma ordem?
      O sorriso desfez momentaneamente o ar arrogante que lhe era habitual.
      -  um convite.
      Era mais fcil ceder do que resistir. Karen deixou-se conduzir para o meio do salo, onde alguns casais danavam e conversavam em voz baixa. Ela no contava,
porm, com a sensao estranha que se apoderou de suas pernas quando o homem a enlaou pela cintura e deu os primeiros passos, com o rosto colado ao seu. De repente,
sem nenhuma razo de ser, ela se sentiu fortemente atrada pelo magnetismo animal que transbordava dele e um tremor de apreenso arrepiou a pele dos seus braos
nus.
      - Voc est com frio?
      Ela balanou a cabea com vivacidade, momentaneamente muda. Por alguma razo misteriosa, a lngua parecia estar colada no cu da boca e ela no conseguiu pronunciar
as palavras mais simples.
      - Est com medo?
      A franqueza da pergunta atingiu-a em cheio e teve o efeito curioso de soltar sua lngua.
      - Eu? Com medo? Do qu?
      Matt encarou-a com a expresso pensativa.
      - No sei... Parece que voc est na defensiva, como se eu fosse uma ameaa  sua segurana...
      - Voc est redondamente enganado! - exclamou Karen com um riso nervoso. - Talvez eu no esteja nos meus melhores dias. Voc no prefere procurar a companhia
de algum mais agradvel  que saiba apreciar o seu charme?
      - No, eu estou muito bem aqui. - Matt continuou enlaando-a pela cintura e, com a mo esquerda, tocou o anel que ela tinha no dedo anular da mo esquerda.
- Voc  casada?
      Karen soltou a mo com um gesto brusco.
      - Fui.
      Ele ouviu a resposta em silncio, como se tivesse adivinhado.
      - Voc quer jantar comigo amanh?
      Ah, meu Deus, que homem insuportvel! Realmente, era de uma insistncia  toda prova.
      - Muito obrigada, mas amanh eu no posso. J tenho um compromisso.
      - E depois de amanh?
      - Tambm no.
      - Tera-feira?
      - Impossvel! E isso se aplica a todos os dias da semana - acrescentou Karen com irritao.
      Ele fitou-a em silncio durante um momento.
      - Jantar comigo  algo to perturbador assim?
      Karen encarou-o com expresso glacial, embora estivesse fervendo de indignao.
      - Eu no gosto, em princpio, de homens arrogantes, muito menos de homens convencidos.
      - O que foi que eu fiz para lhe dar essa impresso?
      - Nada. Ano ser se divertir s minhas custas.
      - Voc est completamente equivocada. No me passou pela cabea...
      - De qualquer maneira, est na minha hora - interrompeu Karen com impacincia.
      - Voc costuma dormir to cedo assim?
      - Eu gosto de acordar cedo.
      - Ah, bom.
      Karen fez meno de afastar-se, mas ele segurou-a pelo brao.
      - Fique mais um pouco. A festa mal comeou.
      - Infelizmente no posso. Preciso ir embora. Solte-me, por favor.
      - S se voc aceitar o meu convite.
      - Ah, meu Deus, que homem antiptico! Voc passa dos limites, sabia?
      Ele deu um sorriso bem-humorado. Karen no sabia o que a irritava mais: a segurana dele ou seu ar de superioridade.
      - Foi o que me disseram.
      - Olhe, voc est perdendo tempo -toa. Eu no sou fcil nem disponvel.  bom voc procurar outra.
      - Eu no me importo a mnima de perder tempo.
      - Nesse caso, s me resta dizer que voc  terrivelmente obtuso.
      - Voc acha?
      - Boa noite, sr. Lucas. Muito prazer em conhec-lo.
      Karen fez meia-volta e saiu  procura de Brbara pelas salas repletas de gente.
      - Ento, gostou da festa? - perguntou Brbara quando as duas voltavam de carro para casa.
      - Gostei muito - Karen mentiu. - Estava um sucesso.
      - Danou muito?
      - Mais ou menos.
      - Eu a vi conversando com Matt Lucas.
      Karen voltou-se espantada e encarou a amiga com os olhos arregalados.
      - No me diga que voc conhece esse cara!
      - Claro. Todo mundo conhece Matt Lucas. Voc no simpatizou com ele?
      - Nem um pouco. Para falar a verdade, estou at aqui de maches! Darei graas a Deus se no encontr-lo de novo pela frente.
      - Isso vai ser meio difcil - comentou Brbara com um risinho misterioso.
      - Por qu?
      - Porque Matt Lucas  o presidente da firma onde voc trabalha.
      - No brinque! - exclamou Karen com um sobressalto. - Matt Lucas  meu patro?
      - Voc no sabia?
      - Mas nunca me passou pela cabea que ele fosse o dono da companhia!
      - Ele chegou ontem de Londres.
      Karen fechou os olhos com uma careta de derrota.
      - Ah, meu Deus, que burra eu sou!
      - O farol est aberto - disse Brbara em voz baixa. - O que aconteceu? Ele convidou voc para sair?
      - Foi.
      - E voc recusou?
      - Lgico!
      Brbara deu uma risada bem-humorada.
      - Gostei. Voc  a primeira que recusa alguma coisa a Matt Lucas.
      - Ele podia ser o homem mais charmoso do mundo que eu no aceitaria um convite para sair assim, sem mais nem menos. Alm do mais, eu no sou empregada dele.
Sou uma simples datilgrafa que trabalha meio-perodo. Se eu tiver um pouco de sorte, ele nem vai notar a minha presena na fbrica.
      - Deus queira... Voc no gostaria de casar de novo, Karen?
      - Casar de novo! Voc ficou louca, Brbara?
      - Nossa, que horror a homens!
      - Pudera. Depois do que me aconteceu, eu no posso ver homem nem pintado na minha frente. Fico arrepiada, como se fosse bicho venenoso.
      Brbara deu uma risada descontrada.
      - Voc  uma graa, Karen. Mas um dia vai mudar de idia.
      - Tomara que no.
      Karen manobrou o carro e parou defronte ao porto da casa de Brbara.
      - Muito obrigada pela companhia. Da prxima vez vamos no meu carro. Assim voc no tem que voltar sozinha para casa.
      - Combinado. Vamos almoar juntas um dia desses. Voc no quer telefonar para mim na semana que vem?
      - T.
      Alguns minutos depois, ao entrar em casa, Karen encontrou a me sentada na sala, assistindo ao ltimo programa na televiso.
      - Como estava a festa?
      - Mais ou menos. Voc estava esperando por mim?
      - Voc se divertiu? - disse Grace, ignorando a pergunta da filha. - Tinha muita gente? Conheceu algum rapaz simptico?
      - Vamos com calma, mame. Prometo que vou contar tudo o que fiz, tintim por tintim. Antes vou fazer um caf. Voc toma?
      - Na hora de dormir?
      - U, que mal tem?
      - Eu fao para voc.
      - Pode deixar. Eu mesma fao.
      Karen ps gua na cafeteira eltrica e apanhou as xcaras e os pires no armrio da copa. Em seguida, ficou parada diante do aparelho, esperando que a gua
fervesse.
      - Voltando ao nosso assunto - disse Grace, servindo o acar nas, duas xcaras. - Como estava a festa?
      Era impossvel esquivar-se s perguntas insistentes de Grace. Ela deixava passar, um tempo e voltava  carga com mais disposio. Por isso Karen levava os
interrogatrios da me na brincadeira.
      - Estava fantstica. Fiquei conhecendo um mundo de gente. Havia uma quantidade incrvel de comidas e bebidas. As mulheres estavam elegantrrimas, cada uma
com um vestido mais bonito que a outra. Os homens tambm no ficavam atrs. Pareciam verdadeiros manequins de moda...
      Grace no escondeu sua decepo diante da descrio sumria da filha.
      - S isso?
      - Voc acha pouco?
      - Voc no conheceu nenhum rapaz interessante? - repetiu Grace, voltando  carga.
      - Dancei com diversos. Cada qual tinha um papo mais divertido que o outro.
      Exceto um, pensou Karen. Ah, que homem antiptico!
      - Bem, j  alguma coisa - comentou Grace com animao. - Agora pelo menos voc ser convidada para outras festas.
      - Pode ser. E Lisa, dormiu bem?
      - Como um anjo.
      - Ns podamos dar um passeio amanh, antes de voc viajar.
      - Boa idia. Vamos dar uma volta de carro.
      Depois que Karen se deitou e apagou a luz da cabeceira, refletiu longamente sobre os acontecimentos da noite, particularmente sobre o encontro com Matt Lucas.
O que havia nele que a atraa e desagradava ao mesmo tempo? Era a segurana, o ar de superioridade, o eterno risinho no canto dos lbios? Talvez fosse uma mistura
de tudo isso, mais o fato de que ela no suportava os homens convencidos e arrogantes.
      O domingo amanheceu ensolarado. Muitas pessoas foram tomar banho de mar ou passar o dia nos clubes de campo. Karen preparou a cesta de mantimentos com frios,
bolachas e queijos para o piquenique que iam fazer nos arredores da cidade. Levou tambm uma fatia grande de torta de galinha que sobrara do jantar, bem como as
frutas que estavam guardadas na geladeira. Para Lisa, embrulhou uma fatia de pudim de chocolate em papel de alumnio e levou uma garrafa trmica com suco de laranja.
      - Vamos? - perguntou da porta da cozinha.
      - Estou indo - respondeu Grace do andar de cima.
      - Vov j vem vindo - repetiu Lisa, descendo a escada de dois em dois degraus. - Ela est terminando de se vestir.
      Lisa conversou animadamente durante todo o passeio, ora com a me, ora com a av. Karen no escondia seu orgulho diante da vivacidade da filha pequena. Embora
fosse frgil e delicada, como toda criana prematura, Lisa sabia levar a vida como ningum. Tudo estava bom para ela...
      - Vov! - exclamou Lisa na beira da piscina. - Olhe o mergulho que eu vou dar.
      Grace voltou a ateno para o tiquinho de gente que estava do outro lado da piscina, com um biquni minsculo de bolinhas brancas.
      - Estou olhando, corao.
      Karen sorriu no momento em que a menina pulou na gua com as mos juntas e foi nadando na sua direo.
      - Voc est pulando muito bem, amor!.- disse Karen, estendendo a mo para a filha. - Voc no est cansada?
      Fazia pelo menos uma hora que Lisa estava dentro da gua.
      - Est na hora do lanche? - perguntou Lisa com os cabelos molhados caindo em cima dos olhos.
      - Voc est com fome?
      - Estou estourando.
      Lisa tinha aprendido essa expresso na escola e repetia-a uma meia dzia de vezes por dia.
      - Ento vamos sair. Apanhe o roupo e a toalha que esto com sua av.
      Lisa saiu da gua no mesmo instante e correu em direo  cadeira de lona onde a av estava sentada, no gramado que cercava a piscina. Grace ajudou-a a enxugar-se
e passou-lhe o roupo em Cima dos ombros.
      - Assim  que eu gosto de ver. Obediente e boazinha. No faz a gente esperar.
      Os cabelos castanhos de Lisa batiam em cima dos ombros rolios e ondulavam nas pontas quando estavam secos. Bastava ela ficar exposta alguns minutos ao sol
para sua pele adquirir uma tonalidade mate-acastanhada, que era a inveja de Karen. Lisa sara ao pai nesse ponto.

      No fim da tarde, Grace despediu-se da filha e levou a mala para o carro, que estava guardado na entrada da garagem.
      - Boa viagem, vov! - exclamou Lisa do quintal.
      - V devagar - acrescentou Karen ao lado da filha. As duas estavam de blusas iguais, de xadrezinho vermelho.
      - Da prxima vez que voc for l em casa, eu vou dar um jantar e convidar os amigos para conhec-la.
      - J sei. Voc vai convidar todos os homens solteiros que esto dando sopa.
      Grace deu uma risada bem-humorada e manobrou o carro. Todas as vezes que Karen visitava a me em Whangarei, Grace promovia vrios jantares e reunies com a
inteno de apresentar a filha aos bons partidos do local.
      - At a vista, querida!
      Lisa acenou at o carro dobrar a esquina da rua. No mesmo instante voltou-se para a me com os olhos brilhantes.
      - Vamos cortar a grama, mame? Ou voc vai arrancar o matinho dos canteiros?
      - Vamos arrancar o mato primeiro. Assim voc fica com fome para o jantar. Por falar em jantar, que tal a gente comer um rosbife com batatinhas fritas assistindo
televiso?
      - Legal!
      - Ento, prepare-se!
      Lisa ajoelhou-se ao lado de Karen em cima dos canteiros e ajudou-a a arrancar as ervas daninhas que nasciam entre as flores. Os primeiros sinais da, primavera
estavam visveis nos botes que abriam em toda a parte. Na horta, os ps de alface estavam bonitos e rechonchudos. O importante era reg-los todos as dias, especialmente
durante as horas mais quentes do dia.
      - Ufa! Estou pregada. Por hoje chega. Vamos entrar e voc vai tomar seu banho antes do jantar. Enquanto isso, eu vou guardar as ferramentas na garagem.
      - Posso ir com voc?
      - Voc no quer assistir  "Disneylndia" antes do jantar?
      - Vai dar tempo?
      - Se voc correr, d - disse Karen, olhando para o relgio de pulso.
      - Vou correndo tomar banho - disse Lisa, partindo a toda em direo  cozinha.

      Eram mais de dez horas quando Karen apagou a luz da cabeceira e enfiou-se embaixo do lenol. Estava quente no quarto fechado. O sono custou a vir e, como sempre,
os acontecimentos do passado afluam das profundezas do inconsciente.
      As horas da noite custavam a passar. Mesmo agora, seis anos depois do acidente, as lembranas antigas invadiam o sono e criavam pesadelos horrveis. Karen
berrava de susto e acordava banhada de suor no meio da noite. Ultimamente,  verdade, os pesadelos ocorriam com menos freqncia, mas mesmo assim eram aterrorizantes.
      O rosto de Brad era a imagem mais comum, primeiro sorridente, depois desfigurado, sinistro. Ela tinha dezenove anos quando o conheceu. Naquela poca, Brad
era um rapaz alegre e atraente de vinte e cinco anos, por quem Karen se apaixonou  primeira vista. Aps seis semanas de namoro, os dois se casaram num sbado 
tarde e, no mesmo dia, partiram em viagem de npcias.
      Como o futuro parecia radiante naquele sbado fatdico! Quem podia imaginar que, algumas horas depois, todos seus sonhos ruiriam brutalmente por terra, como
um castelo de cartas? Os dois passaram a noite num hotel de estrada, numa pequena cidade ao norte de Auckland.
      No momento em que se recolheram ao quarto, depois do jantar, ocorreu a transformao mais espantosa deste mundo. Em vez do marido apaixonado e carinhoso que
Karen conhecia de minuto atrs, surgiu na frente dela um homem profundamente cruel e impiedoso, que estava disposto a se vingar de uma injustia que sofrera alguns
anos antes.
      Aterrada com a transformao repentina do marido, Karen ouviu boquiaberta a explicao que ele deu para o casamento. No era amor que sentia por ela, evidentemente.
Fora movido apenas por um desejo inflexvel de vingana. Por uma coincidncia incrvel. Karen tinha grande semelhana fsica com a ex-noiva de Brad, a moa temperamental
que rompera o noivado alguns dias antes do casamento. Para vingar-se dela, Brad casou-se com Karen.
      O que se passou naquela quarto de hotel, das dez  meia-noite permaneceu impresso na lembrana dela com letras de fogo. Em algum momento da tragdia Karen
perdeu a conscincia e, quando acordou algumas horas mais tarde, descobriu que Brad tinha ido embora e que ela estava sozinha no quarto do hotel.
      Somente no dia seguinte Karen foi informada por um investigador da polcia que o carro de Brad fora encontrado no fundo de um precipcio, alguns quilmetros
ao sul de Auckland, nas primeiras horas da manh. Karen nunca soube com certeza se Brad morreu no local do desastre ou ao ser transportado para o hospital, numa
ambulncia.
      Aps recuperar-se do choque terrvel que despedaou sua vida, Karen, decidiu mudar de cidade e foi residir em Auckland, onde recomeou vida nova, longe dos
parentes e das pessoas que tinham acompanhado de perto o namoro entre os dois.
      Um ms mais tarde ela estava morando num apartamento minsculo de quarto e cozinha e trabalhava como datilgrafa numa firma de advocacia... Algumas semanas
depois, contudo, Karen descobriu, apavorada, que estava grvida.
      Para agravar ainda mais a situao, o parto de Lisa foi repleto de complicaes. Durante alguns dias, a vida da criana esteve por um fio.
      Como uma boneca frgil de porcelana, Lisa permaneceu uma semana na incubadora e somente no ms seguinte Karen pde lev-la para casa. Lisa era um beb muito
pequeno e delicado, mas tinha um apetite normal e dois pulmes robustos. Foi isto o que a salvou, como comentara o mdico.
      A fim de manter a filha com conforto Karen aceitou a penso que o av paterno lhe ofereceu e comprou uma casa nos arredores de Remuera, a uns quinze quilmetros
de centro de Auckland, na Nova Zelndia.
      Construda num bairro retirado, estritamente residencial; a casa tinha um belo quintal, onde Lisa podia brincar ao ar livre depois demais crescida.
      Nos anos seguintes, Karen levou uma existncia praticamente isolada dos contatos sociais, dedicando-se inteiramente  filha e recebendo de vez em quando as
visitas da me. O horror que os homens lhe inspiravam, agravou-se com o passar dos anos e Karen no se importava a mnima de ter a reputao de mulher fria.
      No primeiro ano em que Lisa foi  escola, os dias se arrastaram na casa vazia. Karen decidiu arrumar um emprego de meio perodo a fim de preencher as horas
de solido. Encontrou pouco depois um trabalho que lhe pareceu ideal e para o qual estava perfeitamente adaptada graas  experincia anterior como secretria. O
trabalho lhe tomava apenas quatro horas da manh. Tinha tempo de sobra para levar e trazer Lisa da escola.
      Assim transcorria sua vida at o momento em que aceitou a sugesto de Brbara para ir  festa no clube. Maldita a hora em que aceitei esse convite!, pensou
Karen, virando de um lado para o outro da cama, vendo as horas passarem.
      Agora, alm de ter pesadelos horrveis com Brad, a mscara irnica de Matt Lucas sobrepunha-se  imagem do primeiro marido e Karen sofria duplamente com isso!
Acordava no meio da noite banhada de suor e tinha a ntida impresso de estar despencando no fundo, de um poo, onde avistava o rosto desfigurado de Brad com o riso
irnico de Matt nos lbios.


      Captulo II

      Na segunda-feira de manh, ao estacionar o carro no local reservado para os funcionrios da fbrica, Karen ficou toda arrepiada com o vento frio que soprava.
As primeiras chuvas da primavera desabaram repentinamente, e a temperatura cara sensivelmente em questo de horas.
      A manh transcorreu sem nenhum incidente e Karen relaxou os msculos tensos. Era ridculo ficar nervosa  toa, mas isso escapava ao seu controle. Possivelmente
Matt Lucas no ia descobrir sua presena na fbrica durante vrios dias e, mesmo ento, no manifestaria nenhuma surpresa especial em saber que ela trabalhava na
companhia da qual ele era o presidente. Karen gostava do trabalho e no tinha a menor vontade de deix-lo no momento, a menos que fosse absolutamente necessrio.
      - Bom dia, menina. Como foi de fim de semana?
      Karen levantou a cabea da mquina de escrever e encontrou o rosto sorridente de Mike Evans.
      - Muito bem, obrigada. E voc?
      - Assim-assim. Teria aproveitado mais se voc tivesse feito um programa comigo.
      Arre, que homem chato! pensou Karen, procurando dissimular a antipatia que lhe inspirava a presena de Mike.
      - No diga!
      Mike aproximou-se da mesa e colocou as mos abertas em cima da tampa polida como um espelho.
      - Teria sido muito mais divertido.
      - Escute, Mike, eu estou atrasadssima e no posso lhe dar ateno. Tenho que terminar este relatrio sem falta agora de manh.
      - Voc est sempre ocupada - disse Mike, sem se dar por achado. - Pelo visto, voc  a funcionria mais ativa da fbrica.
      - Porque eu no bato papo com voc?
      Mike deu uma risada.
      - Vamos jantar hoje? Eu conheo um restaurante sensacional...
      - Impossvel.
      - Quando, ento?
      Mike apoiou o cotovelo na mesa e observou-a fixamente.
      - No dia de So Nunca. Posso terminar meu trabalho?
      Mike continuou apoiado na beira da mesa, observando-a em silncio, com um sorriso irnico no canto dos lbios. Karen estava prestes a dizer um desaforo quando
o telefone tocou. Retirou o fone do gancho e apertou o boto das comunicaes internas.
      - Al?
      - Karen, sou eu, Pamela. Tudo bem? Escute, Matt quer falar com voc.
      - Agora?
      - , neste minuto. Voc lembra onde  a sala dele?
      - Mais ou menos.
      - Suba um andar e siga o corredor at o fim. A dobre  direita.  a primeira sala. Eu estou esperando por voc. At j.
      - Bem feito! - exclamou Mike com uma risada. - Voc no quis sair comigo e foi chamada  sala do chefe. Aposto que ele vai lhe passar um sabo!
      - No sei por qu! Eu no fiz nada de mal...
      - Matt  um perfeito canibal. Ele frita as secretrias como se fossem bolinhos de bacalhau. Pode crer.
      Karen deu uma risadinha de pouco caso.
      - Voc est com inveja.
      - Eu, com inveja de ser chamado  sala de Matt? Voc est sonhando, garota!
      Karen levantou-se da mesa, passou as mos nos cabelos e, sem se despedir de Mike, dirigiu-se ao andar de cima. Pamela recebeu-a com um sorriso e introduziu-a
numa sala enorme, inteiramente acarpetada e onde todos os mveis eram de alumnio e recobertos de vinil branco brilhante, impecavelmente limpos.
      Matt estava de p, atrs da mesa comprida, observando-a com um olhar enigmtico. O corpo alto, de ombros largos, estava nitidamente recortado sobre a janela
de vidro que cobria toda a parte de trs da sala.
      Os cabelos castanhos formavam ondas nas pontas e o terno azul-marinho acentuava a masculinidade que transpirava de sua personalidade enrgica. Matt parecia
mais um oficial da Marinha do que um dono de indstria. Havia nele uma aura de poder que intimidava as pessoas. Karen rezou para que a entrevista terminasse rapidamente
e que pudesse retomar  tranqilidade de sua sala.
      Com uma clareza inquietante ela viu os olhos castanho-avermelhados percorrerem seu corpo esguio de alto a baixo, como algum que calcula o valor de uma mercadoria.
Ela tinha a impresso de ser a borboleta de asas azuis que estava sendo examinada pelos olhos penetrantes de um colecionador.
      O silncio prolongou-se durante um instante que pareceu uma eternidade. Foi Matt quem o rompeu, finalmente.
      - O destino nos uniu mais uma vez.
      - Pois .
      - Sente-se, por favor.
      Karen escolheu a cadeira que estava mais afastada da mesa e sentou-se na beira, com os msculos tensos. Matt continuou de p e a sua figura imponente tinha
algo de assustador contra o fundo claro da vidraa.
      - H quanto tempo voc trabalha na fbrica?
      Ele apanhou uma pasta em cima da mesa e examinou o contedo com a vista.
      - H seis semanas.
      - Voc est gostando do trabalho?
      - No posso me queixar.
      Ele levantou a cabea e fitou-a no fundo dos olhos.
      - Fui informado de que voc  eficiente e pontual.
      Karen ouviu o comentrio em silncio, sem afastar os olhos dos dele.
      Onde Matt queria chegar?
      - H quanto tempo que voc vive sozinha com sua filha?
      A pergunta inesperada apanhou-a de surpresa.
      - Eu no sabia que os assuntos pessoais faziam parte da minha ficha.
      - No fazem, de fato, mas estou vendo aqui que voc tem uma filha de cinco anos.
      - Exatamente. Ela vai fazer seis anos em maio.
      - Antes de ocupar esse emprego, que outra atividade voc exerceu?
      Dessa vez a pergunta irritou-a de verdade. Ela se conteve para no dizer um desaforo. O que Matt estava pensando? Ela no ia tolerar que lhe fizesse perguntas
desse gnero s porque era o patro!
      - Desculpe minha curiosidade, mas qual  a inteno desta entrevista? - perguntou Karen com impacincia.
      Matt deu um sorriso sem jeito. Era a primeira vez que ela notava uma indeciso de sua parte. No fundo, ele era humano e frgil como qualquer um.
      - Eu no queria irrit-la. Estava apenas curioso para saber se havia alguma semelhana entre a Karen que conheci na festa e a datilgrafa que trabalha para
mim.
      - Agora voc sabe que as duas so a mesma!
      Em vez de sentir-se agredido pelo comentrio indelicado, Matt fitou-a com bom humor.
      - Exatamente. As duas so a mesma. Posso convid-la mais uma vez para jantar comigo?
      Karen levantou-se da cadeira com as pernas trmulas e mal conseguiu controlar seu primeiro impulso, que era sair da sala e bater a porta com toda a fora na
cara do homem insolente que, por uma desagradvel fatalidade, era seu chefe.
      - Esse convite tem alguma coisa a ver com o meu trabalho? - Matt fitou-a em silncio antes de responder.
      - No, no tem.
      - Ah, bom. Porque se tivesse, eu pediria minha demisso agora!
      - O que tem de mais no meu convite? - indagou Matt com a testa franzida. Pelo visto, estava intrigado e curioso, ao mesmo tempo, com a recusa de um convite
que lhe parecia perfeitamente natural. Qual  a secretria ou a datilgrafa que no se sente envaidecida ao ser convidada pelo chefe para jantar fora?
      - Eu raramente saio de casa, para incio de conversa - disse Karen, procurando manter a voz serena. - A festa de sbado foi uma exceo. Para falar a verdade,
eu preferia no ter ido, mas Brbara insistiu e eu acabei aceitando o convite.
      - Compreendo perfeitamente que voc prefira dedicar seu tempo livre  filha, mas no vejo em que um convite para jantar fora ir abalar sua existncia reservada.
      -  uma questo de princpios. Resolvi reduzir meu crculo de amizades ao mnimo e no fao exceo para ningum.
      Matt inclinou a cabea sobre a mesa, como se procurasse uma soluo para o caso.
      -  pena. Eu ficaria muito contente de ter a oportunidade de conhec-la melhor.
      - Agradeo seu interesse por mim mas, no momento, no posso aceitar seu convite.
      - E mais tarde?
      Antes que Karen pudesse responder, a campainha do telefone desviou a ateno de Matt. Ela aproveitou a oportunidade inesperada e saiu rapidamente da sala.
      Pela primeira vez em seis semanas, desde que trabalhava na fbrica, Karen experimentou uma sensao de alvio no fim do expediente. Pegou a bolsa pendurada
nas costas da cadeira, atravessou o saguo de entrada no andar trreo e caminhou diretamente para o estacionamento. Foi somente depois que se instalou confortavelmente
na direo do carro que respirou e relaxou os msculos tensos.
      Antes de voltar para casa, parou num bar e bebeu um cafezinho para acalmar os nervos. Em seguida, como tinha uma hora livre, aproveitou para fazer algumas
compras antes de apanhar Lisa na escola.
      - Como foi de aula? - perguntou Karen, quando Lisa pulou dentro do carro e lhe deu um beijo estalado no rosto. - A professora passou alguma lio para casa?
      - Passou. Eu ganhei nota dez na aula de desenho, os porquinhos-da-ndia tiveram filhotes e Jeremy me convidou para a festa de aniversrio. Posso ir?
      - Quando ?
      - No sbado.
      - Eu levo voc.
      Karen ligou o motor e manobrou o carro na rua estreita.
      - Hoje  tarde voc tem aula de bal, est lembrada?
      - Estou. Katherine disse que eu preciso praticar muito para ser uma bailarina.
      Karen balanou a cabea, ligeiramente distrada. Sua ateno estava voltada para o trnsito intenso da hora do almoo.

      O dia seguinte foi uma correria ininterrupta. Uma das datilgrafas caiu doente e Karen teve que se desdobrar para no atrasar o servio. Em vista disso, as
horas da manh passaram mais rapidamente que de costume e, quando o telefone tocou na sua mesa, pouco antes do meio-dia, ela retirou o fone do gancho com um suspiro
de alvio.
      - Al?
      S havia duas pessoas que sabiam seu telefone no trabalho. A diretora da escola onde Lisa estudava e sua me. Ao ouvir uma voz masculina no outro lado da linha,
Karen prendeu a respirao.
      - Karen? Sou eu, Matt.
      - Ah, sim. O que voc manda?
      Ele deu uma risadinha.
      - Eu no mando nada, vou lhe pedir um favor. Voc pode se encontrar comigo dentro de cinco minutos no saguo da entrada?
      - Posso saber para qu? - perguntou Karen com o corao batendo dentro do peito.
      - Ns vamos almoar juntos.
      Era s o que faltava! Interromper seu trabalho para convid-la para almoar...
      - Voc desculpe mas eu no posso almoar fora hoje.
      - Por qu?
      - Porque no! - repetiu com impacincia.
      Ela ouviu a risadinha de Matt no outro lado da linha.
      - Voc est zangada comigo?
      - Eu? Zangada com voc? Por que haveria de estar?
      - Pois parece...
      - Eu simplesmente no costumo receber telefonemas durante o expediente.
      - Quem voc pensava que fosse?
      - Eu no pensava nada!
      - Desculpe.
      - No tem de qu.
      - Eu estou esperando por voc no saguo de entrada. No demore.
      - Eu vou apanhar minha filha na escola.
      - A que horas?
      - s duas.
      - D tempo de sobra.
      Matt desligou o telefone antes que ela pudesse acrescentar qualquer coisa. Fervendo de indignao, Karen bateu o fone no gancho. Quem ele estava pensando que
era? Ele podia mandar nela durante as horas de servio, mas no durante seu tempo livre. As horas da tarde eram dela e ningum iria interferir na sua vida. Matt
ia esperar por ela sentado, para deixar de ser besta!
      Ao meio-dia em ponto Karen cobriu a mquina de escrever com a capa verde de plstico, apanhou a bolsa nas costas da cadeira e desceu a escada sem olhar para
um lado nem para o outro. No via a hora de sair da fbrica e entrar no carro que estava estacionado no ptio interno.
      No instante porm em que atravessou a porta da entrada, ela parou hesitante, com uma expresso de perplexidade no rosto. Matt estava sentado na direo do
Jaguar bem na frente do porto. Era impossvel passar por ele sem ser vista.
      - Voc ia fugir de mim?
      O sorriso e a mo estendida para fora da janela a desarmaram momentaneamente.
      - Eu j disse que no posso almoar com voc. No insista, por favor.
      - Voc vai sentir-se melhor depois de comer num bom restaurante. V por mim.
      - Eu tenho que pegar Lisa na escola. Alm disso, no estou com a menor fome.
      - Voc precisa comer, menina, est muito magra.
      Ele abriu a porta do lado oposto ao seu e fez sinal para ela entrar.
      Ah, que homem insuportvel! murmurou Karen consigo, dando a volta no carro. A arrogncia dele no tinha limite. Pelo visto, ele estava acostumado com mulheres
que faziam sempre sua vontade.
      - Voc costuma empregar esse sistema do arrasto com todo mundo?
      Matt deu uma risada bem-humorada.
      - No. Somente com as mulheres difceis. Vamos embora antes que os outros saiam. O que eles vo pensar se nos virem discutir na porta da fbrica, hein?
      De fato, no seria nada agradvel alimentar a curiosidade alheia com uma cena na porta da fbrica. Karen no teve outra alternativa seno entrar e sentar-se
no banco macio do Jaguar. Mas ela estava uma fria quando bateu a porta do carro.
      Matt ajeitou-se diante da direo e virou a chave. O ronco silencioso do motor parecia o zumbido de um besouro. Karen foi forada a reconhecer que o interior
do Jaguar, sobretudo com o ar condicionado ligado, era incrivelmente confortvel. No podia se comparar com seu Fiat minsculo.
      - Voc gosta da comida italiana?
      Ela estava distrada e levou um susto com a pergunta.
      - A essa altura, qualquer coisa serve.
      - Nossa, que resposta malcriada! At parece que estou arrastando voc  fora para o restaurante.
      - E no est, por acaso?
      - No fiz por mal. Eu queria apenas passar uma hora agradvel na companhia de uma mulher bonita.
      Karen ignorou o comentrio, por mais elogioso que fosse. Ela estava cansada de ouvir elogios desse tipo. Sua desconfiana dos homens era inabalvel.
      - Posso fazer uma pergunta?
      Dessa vez foi Matt que se voltou surpreso ao ouvir a voz dela aps um silncio prolongado.
      - Quantas voc quiser.
      - Que histria  essa?
      - Qual? No entendi o que voc perguntou.
      - O que voc quer de mim, exatamente?
      - U, eu pensei que estivesse claro como o dia.
      - Para mim no est nada claro. Quero ouvir uma explicao.
      - Como eu disse antes, gostaria de conhec-la melhor.
      - E qual  a inteno que est por trs disso?
      - Nenhuma.
      - Sei disso! Primeiro, almoo num restaurante italiano. Depois, convite para tomar um drinque no apartamento. Depois...
      - Cama?
      - Exatamente!
      No instante em que ela disse isso, Matt voltou-se de frente e lhe dirigiu um olhar devastador.
      - Voc est abusando de minha pacincia.
      - E voc est abusando de sua posio de chefe!
      No momento em que Matt entrou no estacionamento do restaurante e desligou o motor do carro, Karen recuou instintivamente para o canto do banco.
      - Eu vou tomar um txi - disse, abrindo rapidamente a porta do carro.
      - De jeito nenhum! Voc vai almoar comigo. Depois do almoo eu a levo de volta para a fbrica, onde voc deixou o carro.
      Karen abaixou a cabea e caminhou lentamente pelo ptio coberto de cascalho mido. O sapato fazia um barulhinho caracterstico ao pisar em cima das pedrinhas
e foi esse o nico rudo que interrompeu o silncio pesado que pairava entre os dois.
      O almoo tambm no foi dos mais agradveis, embora a comida estivesse divina, como Karen foi forada a reconhecer. O fil  parmegiana, coberto de molho de
tomate e de queijo derretido, estava uma delcia. Mesmo assim, ela deu um. suspiro de alvio quando Matt pediu a conta ao garom.
      - Sobremesa?
      - No, muito obrigada.
      - Caf?
      - Sim.
      - Por favor, dois cafs e a conta. Eu estou com pressa.
      Ao descer do Jaguar no estacionamento da fbrica, onde tinha deixado o carro, Karen pisou em falso numa pedra mais grada e quase perdeu o equilbrio. Matt
estendeu a mo a tempo e segurou-a com firmeza pelo brao. O contato ardeu em sua pele como uma queimadura.
      - Voc torceu o p?
      - No, no foi nada. - Ela abaixou-se para puxar a meia de seda. -  esse salto alto...
      - Voc quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro?
      - No precisa. Posso andar perfeitamente bem.
      Ela estava capengando visivelmente, no entanto.
      - Se voc preferir, eu posso carreg-la no colo.
      - Muito obrigada!
      Matt acompanhou-a at a porta do Fiat.
      - Voc quer jantar comigo amanh?
      Ela voltou-se com a expresso cansada. Era inconcebvel! Ele no desistia mesmo! Ela estava comeando a perder a pacincia.
      - Um jantar bem simples. Em casa.
      - Impossvel.
      Ele voltou-se de frente e encarou-a no fundo dos olhos.
      - No convite est includa a presena de Lisa.
      Karen arregalou os olhos, atnita.
      - Como voc sabe que minha filha se chama Lisa?
      Ele ignorou a pergunta. Continuou fitando-a em silncio, um sorriso imperceptvel no canto dos lbios.
      - Minha secretria est me chamando da janela. Passarei pela sua casa s sete horas.
      - Voc no sabe onde eu moro.
      - Eu descubro. Adeus, Karen. Lisa gostar do programa...

      Ao refletir sobre o convite, na volta para casa, Karen chegou  concluso de que era melhor aceit-lo de uma vez para evitar discusses inteis com Matt. Entretanto,
 medida em que a hora do jantar se aproximava, Karen comeou a demonstrar os primeiros sintomas de nervosismo. Ela estava uma pilha quando Lisa entrou no quarto
com o vestidinho de gola branca. Karen tinha terminado de se pintar e estava parada diante da penteadeira, alisando as dobras do vestido amarelo-ouro de tafet que
acentuava a cor dos cabelos claros e dava  sua pessoa a aparncia delicada de um manequim.
      - Mame!- gritou Lisa, radiante. - Tem um carro enorme no porto.  ele?
      - Deve ser - disse Karen distrada, soltando os cabelos em cima dos ombros e balanando a cabea de um lado para o outro, a fim de igualar as pontas. - V
atend-lo, filha.
      Lisa partiu na corrida pela escada abaixo. Karen deu um suspiro de desnimo e apanhou a bolsa em cima da cama. Desceu lentamente a escada, procurando assumir
uma expresso natural e descontrada, como se no estivesse nem um pouco nervosa com a visita de Matt e dirigiu-se  porta da frente. Lisa j estava l, conversando
animadamente com Matt, como se fossem velhos amigos.
      - Vamos entrar? - perguntou Karen com uma cerimnia deliberada. Matt deu um sorriso e estendeu-lhe a mo.
      - Passou bem de ontem?
      - Muito bem, obrigada.
      - Se vocs duas esto prontas, podemos ir.
      - Venha, Lisa - disse Karen, estendendo a mo  filha.
      Matt morava num palacete de dois andares de frente para a praia. Lisa arregalou os olhos ao entrarem no jardim por um caminho de paraleleppedos, ladeado de
palmeiras e de coqueiros, com um gramado imenso, semelhante ao de um campo de golfe.
      - Voc mora sozinho neste casaro? - perguntou a menina boquiaberta quando Matt estacionou o carro no ptio.
      - Matt est acostumado, minha filha.
      - Sobretudo porque eu tenho um casal de empregados que trabalha para mim h anos - acrescentou Matt. - Ann  cozinheira e caseira, ao mesmo tempo. Ben, o marido,
 copeiro e motorista. Vocs vo conhecer os dois daqui a alguns minutos. Eles so muito simpticos.
      A manso de estilo colonial era to imponente por dentro quanto por fora. A construo empregava tijolos em certas partes e madeira em outras, como era costume
alguns anos atrs na Nova Zelndia. A madeira pintada de branco contrastava alegremente com os tijolos descobertos, de um alinhamento impecvel. As janelas grandes,
de vrias abas, eram todas pintadas de azul colonial, como as fazendas antigas.
      Karen admirou fascinada o tapete persa que havia logo na entrada, bem como as gravuras originais que cobriam toda uma parede da sala de estar.
      - Vamos at a sala de msica - disse Matt, dando a mo a Lisa e dirigindo-se para um salo enorme, maravilhosamente decorado com mveis e objetos antigos.
      A cor dominante era bege-claro. Tanto as cortinas quanto os tapetes repetiam a mesma cor em diversas tonalidades, o que se aplicava igualmente  forrao do
sof e das cadeiras estofadas. Os mveis de mogno complementavam o esquema de cor e o efeito total era de um bom gosto impecvel.
      - Voc toma um suco de laranja, Lisa?
      - Posso, me?
      Karen balanou a cabea. Ela estava distrada, olhando uma gravura na parede.
      - O que voc quer? Usque, vodka, campari?
      - Um campari, por favor.
      Matt dirigiu-se ao barzinho no fundo da sala e, enquanto preparava as bebidas, manteve uma conversa animada com Lisa. Fez perguntas sobre a escola, sobre os
amigos que ela tinha, sobre as brincadeiras prediletas. Lisa, que era em geral tmida na presena dos estranhos, respondeu a tudo com uma espontaneidade que deixou
Karen surpresa. Pelo visto, os dois se entendiam maravilhosamente bem.
      O jantar consistia de trs pratos e fora preparado especialmente para agradar ao paladar de Lisa. No tinha temperos fortes nem receitas sofisticadas. Era
bem simples, mas estava muito gostoso. Primeiro, Ben serviu um consom de galinha que foi seguido por um fil mignon ao ponto acompanhado de legumes e batatinhas
fritas. Para a sobremesa. Ann tinha feito um bolo de chocolate com uma calda meio-puxa. Havia tambm uma salada de frutas que estava com uma aparncia maravilhosa.
Inclua praticamente todas as frutas da estao, alm de um molho feito com iogurte e grmen de trigo. Quem quisesse podia pr creme de leite fresco e acar  vontade.
      - De qual eu como, me? - perguntou Lisa, indecisa entre as duas sobremesas.
      - Coma as duas, boneca - disse Matt, servindo o prato da menina com uma fatia de bolo de chocolate. - Quando voc terminar, Ben troca seu prato e voc prova
a salada de frutas. Ann fez especialmente para voc.
      No fim do jantar, Lisa provou um gole do vinho ros que Matt lhe ofereceu num copo de p comprido e estalou a lngua como se fosse a provadora de uma casa
francesa.
      Matt deu uma risada bem-humorada.
      - Agora chega, Lisa. Voc j comeu demais - disse Karen, quando a menina colocou o garfo em cima da mesa.
      - Vamos tomar o caf no salo - sugeriu Matt, levantando-se da mesa.
      - Ns no podemos voltar muito tarde - disse Karen, olhando de relance para o relgio de parede que marcava nove horas. - Lisa dorme cedo. Ela tem escola.
      - Ah, mame, deixa eu ficar mais um pouquinho.
      - S mais um pouquinho. - disse Karen, sria.
      Lisa, pelo jeito, estava fascinada com a opulncia da casa e com a presena de Matt. Provavelmente ele convidara a menina de propsito, com a inteno de seduzi-la!
Esse pensamento passou como um claro pela cabea de Karen.
      - Ns podamos combinar um programa para uma noite em que Lisa no tenha escola no dia seguinte.
      Lisa abriu imediatamente um sorriso que iluminou todo o seu rosto.
      - No pode ser na sexta-feira que vem? Eu no tenho aula no sbado!
      - Lisa, modos! - exclamou Karen com severidade.
      Lisa voltou-se para a me com uma expresso de susto.
      - O que foi, me?
      - Sexta-feira est perfeito para mim - disse Matt, antes que Karen pudesse intervir. - Vamos jantar os trs juntos. Num restaurante que d frente para o mar.
      - Ah, que legal! - exclamou Lisa, dirigindo seu melhor sorriso ao homem de olhos castanhos. - Voc ouviu, me?
      - Depois a gente conversa sobre isso.

      Karen no deu uma palavra na volta para casa. No minuto em que Matt parou o carro defronte ao porto, ela balbuciou um agradecimento rpido e desceu, sem se
voltar para trs.
      - Adeus, Lisa.
      - Adeus, Matt. At sexta.
      No momento em que entraram em casa e fecharam a porta, Karen viu pela janela as lanternas traseiras do Jaguar se afastarem rapidamente pela rua escura. Passou
a mo no rosto e deu um suspiro, como se acordasse de um pesadelo angustiante.

      O meio perodo do dia seguinte transcorreu num clima de tenso extrema. Duas vezes Karen levantou-se da mesa com, a inteno de apresentar sua demisso no
Departamento Pessoal. Chegara  concluso de que era impossvel trabalhar mais tempo para Matt. Felizmente no dependia do ordenado que recebia na fbrica para viver.
A penso que o av paterno de Lisa lhe dava era suficiente para atender s despesas da casa.
      Karen passou a manh aguardando o momento oportuno para ter uma conversa com o chefe do Departamento Pessoal. Nas duas vezes, porm, em que foi  sala dele,
Bill estava ocupado com assuntos urgentes ou em conferncia na sala do chefe. Quando faltavam dez minutos para o meio-dia, Karen decidiu entregar a demisso por
escrito.
      Tinha terminado de bater o formulrio de praxe e, retirado as folhas da mquina quando ouviu o rudo de passos atrs de si.
      - Bom dia, beleza. Como passou de ontem?
      Karen voltou-se com a testa franzida e avistou Mike Evans apoiado no arquivo de ao, com um sorriso idiota nos lbios.
      - Bem, e voc?
      Sem aguardar a resposta, ela apanhou um envelope na gaveta e colocou a folha batida  mquina no interior. Em seguida, tomou a sentar-se e endereou o envelope
 ateno do chefe do Departamento Pessoal.
      - Quais so as novidades?
      - Tudo na mesma.
      - Ouvi dizer que voc passou a perna em todo mundo e foi direto ao santurio.
      - No entendi patavina do que voc disse. Troque em midos.
      Mike desencostou-se do arquivo de ao e coou o queixo com lentido.
      - Vou refrescar sua memria, querida. Com quem voc almoou ontem?
      - No lembro mais.
      - Pois eu lembro. Com o chefe.
      - Ah, sim. E da?
      - E da que todo mundo ficou sabendo.
      - Escute, Mike, eu ,estou com pressa. Tenho que entregar este envelope antes do almoo. Voc me d licena?
      - Eu s quero saber uma coisa. O chefe  to bom de bico quanto dizem, ou  exagero?
      Karen lanou-lhe um olhar glacial.
      - Voc precisa desinfetar essa cabea, rapaz!
      No momento em que Karen apanhou a bolsa e saiu da sala, praticamente esbarrou em Matt, que vinha entrando naquele momento.
      - Voc est de sada?
      Ela parou, perplexa, e encarou-o de boca aberta. Mike ficou repentinamente vermelho como um camaro e colou-se  parede como se fosse um mvel da sala.
      - Eu estou atrasadssima! - murmurou Karen, saindo pela porta da sala, em direo  escada.
      No momento em que chegou ao saguo da entrada, estava trmula de raiva e incapaz de pronunciar uma nica palavra coerente. Matt adiantou-se a ela e abriu a
porta da frente. Karen, porm, ignorou a cortesia e desceu correndo os degraus, rumando diretamente para o carro estacionado a alguns metros dali.
      Ela s viu que o Jaguar estava parado ao lado do Fiat quando Matt abriu a porta da frente e apontou para dentro.
      - Entre a. Eu preciso conversar com voc.
      A ordem era firme e incisiva. Mesmo assim, ela ouviu-a com total indiferena.
      - No tenho tempo para conversar.
      - Por favor, no vamos discutir.
      - Eu no tenho nada para conversar com voc.
      - Como no? Mike estava importunando voc?
      A pergunta foi a gota d'gua. Karen voltou-se com o rosto vermelho de indignao, como se no pudesse controlar mais um segundo a raiva que borbulhava dentro
de si.
      -  voc quem est me importunando! Por que vocs dois no me deixam em paz, santo Deus? Eu no suporto os homens convencidos, muito menos os que se julgam
irresistveis. Est claro agora?
      - Que culpa eu tenho se voc foi infeliz no casamento?
      Karen sentiu vontade de agredi-lo fisicamente. Alm de arrogante, Matt era odioso, s vezes.
      - Voc no sabe nada a respeito do meu casamento. Mesmo porque isso no  da sua conta!
      - Calma, Karen, calma. No precisa me agredir.
      - V para o inferno!
      Matt ficou repentinamente lvido. Via-se que ele estava se controlando com dificuldade.
      - No abuse de minha pacincia, Karen. Tudo tem um limite.
      - Alm do mais, eu no gostei nada da maneira como voc tentou conquistar a simpatia da minha filha.
      - Voc est me acusando de suborno?
      - Exatamente.
      Matt recuou um passo e levou a mo ao rosto, como se quisesse afastar uma nvoa que encobria a viso. Pouco a pouco ele recuperou o sangue-frio.
      - Voc est completamente enganada. Eu nunca fiz isso na vida. Pelo menos no conscientemente.
      A franqueza da confisso atingiu-a em cheio.
      - Desculpe. Eu fui injusta. - Karen abriu a bolsa e retirou o envelope batido  mquina. - Olhe, aqui est meu pedido de demisso. Vou aproveitar e entreg-lo
em mos.
      Matt segurou o envelope e guardou-o no bolso do casaco, sem examinar o contedo.
      - Isso era inevitvel. A partir de que data?
      - De sexta-feira da semana que vem.
      Matt encarou-a, pensativo.
      - Eu reservei uma mesa para amanh  noite no clube. Posso passar em sua casa s sete?
      - Eu no vou jantar com voc.
      - Lisa ficar desapontada se voc recusar. Eu prometi lev-la, est lembrada?
      - Ah, voc e suas promessas! Por que no me deixa em paz no meu canto? Eu gostava da vida sossegada que estava levando, antes de voc aparecer e atrapalhar
tudo.
      - Vamos conversar sobre isso amanh.
      - Eu j disse que no vou jantar com voc! - exclamou Karen com irritao.
      Matt estendeu a mo e tocou de leve no queixo dela, virando o rosto na sua direo.
      - Ns j tivemos uma discusso como essa antes. Adeus, Karen. At amanh s sete...


      Captulo III

      Karen foi para o trabalho na manh seguinte sem saber o que ia acontecer. Talvez fosse chamada  sala do chefe do Departamento Pessoal que, a essa altura,
devia ter recebido o pedido de demisso que ela entregara no dia anterior a Matt Lucas. Mas no estava preparada para enfrentar os comentrios e os olhares de curiosidade
que as outras datilgrafas lhe dirigiram.
      As conversas eram interrompidas bruscamente toda vez que Karen entrava na sala e ela comeou a sentir-se realmente importunada com os mexericos que circulavam
nas suas costas.
      Duas vezes esteve na iminncia de telefonar para Matt, a fim de suspender o jantar marcado para aquela noite. S no telefonou com receio de que a conversa
pudesse ser ouvida por algum.
      Seu nervosismo aumentou com a.passagem das horas e a excitao que Lisa demonstrava com o programa noturno acentuou ainda mais a ansiedade. Desejava sinceramente
ter recusado o convite. Agora no tinha outra escolha seno sujeitar-se mais uma vez  companhia extremamente enervante de Matt. O que mais a irritava nisso tudo
era Matt ter usado de chantagem. Aproveitara a inocncia de Lisa para obter seu consentimento.
      Naquela noite, ao contrrio da primeira vez em que os trs saram juntos, Karen passou o mnimo de maquilagem na face. No estava com pacincia nem com vontade
de se fazer bonita para agradar a Matt. Mesmo assim, Lisa lanou-lhe um olhar de admirao quando ela apareceu no alto da escada, com um vestidinho leve e esvoaante
de jrsei e os cabelos soltos sobre os ombros.
      - Meu Deus, mame, como voc est bonita! E cheirosa tambm. At parece que vai a um casamento.
      Karen sorriu sem querer.
      - Quer dizer que eu s me perfumo para ir a casamentos, sua bobinha?
      - U, a gente nunca sai de casa, a no ser para ir aos casamentos comentou Lisa, balanando as tranas de um lado para o outro. - Como  esse restaurante onde
a gente vai? Tem muita gente?
      - Est assim de gente! Talvez voc encontre um menino da sua idade para brincar no jardim.
      - Verdade?
      Nesse instante as duas ouviram um carro manobrar diante da casa.
      -  ele! - gritou Lisa, correndo pela escada abaixo como um diabinho.
      No instante em que Matt tocou a campainha do porto, ela estava com a mo na maaneta e recebeu-o com um sorriso aberto. Matt, na opinio da menina pequena,
era o Papai Noel que no tinha dia para chegar.
      Karen ouviu com ateno a conversa dos dois no hall.
      - Nossa me, como voc est bonita! Quem foi que fez essas trana em voc?
      - Foi mame! - exclamou Lisa, rodopiando na ponta dos ps, como aprendera na aula de bal, a fim de girar as duas trancinhas no alto da cabea. - Voc gostou?
      - Gostei muito. Sua me j est pronta?
      - Ela vem descendo - disse Lisa, olhando para o alto da escada.
      Karen no simpatizava com Matt nem tinha a menor vontade de jantar na companhia dele. Mesmo assim, estava nervosa e excitada com o programa noturno. Matt,
como sempre, estava impecvel. O terno cinza-escuro combinava com a gravata de seda estampada, com um n bem grande e bem frouxo no colarinho cor de areia.
      Karen estendeu a mo com um sorriso e convidou-o para tomar algum coisa antes de sarem.
      - Eu posso lhe oferecer usque, gin ou campari. Qual voc prefere?
      Matt agradeceu educadamente mas no se afastou de junto da porta, como se no quisesse abusar da hospitalidade.
      - Se vocs duas esto prontas, podemos ir. Vamos tomar o aperitivo no bar do restaurante, enquanto escolhemos o menu. No , Lisa?
      - Isso mesmo.
      - Voc j sabe o que vai pedir?
      - Torta de camaro!
      - Lisa adora camaro - disse Karen sem jeito diante da alegria radiante da filha.
      - Vamos, ento - disse Matt, dirigindo-se ao Jaguar que estava estacionado diante do porto. - Lisa vem na frente conosco.
      - Oba! S assim eu posso conversar com vocs enquanto estou vendo a paisagem.
      - Lisa adora andar de carro - acrescentou Karen, ajeitando-se no banco macio do Jaguar.
      Matt deu uma risada e voltou-se para a menina.
      - Mais do que de andar a p?
      - A p cansa. De carro no cansa.
      - Voc est com fome, boneca?
      - Estourando!
      - Lisa, modos!
      Matt limitou-se a sorrir com a naturalidade da menina. No momento em que o carro partiu, Lisa sentiu-se encantada. Arregalou os olhos e observou tudo em volta
com uma admirao crescente. Ao mesmo tempo, falava sem parar e contou todas as novidades da semana. O encanto da menina era contagiante e, no fim de algum tempo,
os trs estavam conversando e rindo s gargalhadas. Matt estava sinceramente encantado com a companhia da menina. No era apenas por boa educao que lhe dirigia
a palavra. Era tambm porque gostava realmente de ouvir os comentrios divertidos da menina.
      - Quer dizer, ento, que voc vai a uma festa amanh?
      Eles estavam sentados no terrao do restaurante com vista para o mar e Matt tinha terminado de beber um gole de vinho ros quando dirigiu essa pergunta a Lisa.
A menina engoliu apressadamente uma garfada da torta de camaro antes de responder.
      - Vou. amanh  tarde. Jeremy  um menino da minha classe. Ele faz seis anos no sbado.
      - Ele  quase da sua idade...
      -  trs meses mais velho - disse Lisa com ar de importncia.
      - Ah, bom - disse Matt, levando o copo aos lbios para dissimular o sorriso. - O que mais voc me conta?
      - Da escola onde eu estudo?
      - .
      - Jeremy  o primeiro aluno da classe. Ele sabe ler e escrever com perfeio. E recebe nota dez toda vez que leva um dever para casa.
      - E voc? Tambm recebe nota dez?
      - s vez.
      Lisa adorava falar errado.
      - s vezes, filha - corrigiu Karen. - Por que voc fala errado se sabe falar certo?
      Lisa limitou-se a balanar as tranas de um lado para o outro, enquanto olhava para o carrinho das sobremesas que o garom empurrou na direo deles.
      - O que voc vai querer, boneca?
      - Pudim, sorvete e salada de frutas.
      - Lisa, tenha modos! - repetiu Karen, vermelha como um pimento.

      Passava das nove quando os trs se levantaram da mesa e dirigiram-se para o estacionamento.
      - Quer dar uma volta? - perguntou Matt a Karen.
      - No, obrigada. Vamos direto para casa. Lisa est morrendo de sono. De fato, satisfeita com a refeio copiosa e exausta com a excitao do programa noturno,
Lisa adormeceu logo que o carro comeou a andar.
      - Eu vou lev-la no colo - disse Matt ao estacionar o Jaguar no porto de casa. - Enquanto isso voc abre a porta da frente.
      - No precisa. Eu levo.
      - Nesse caso, eu abro a porta. A chave est com voc?
      - Muito obrigada, mas realmente no precisa se incomodar - disse Karen, sem a menor vontade de convidar Matt para entrar. - O jantar estava uma delcia e eu
agradeo por ns duas. Lisa adorou o passeio.
      Karen abriu a porta do carro, pegou Lisa no colo e deu alguns passo em direo ao porto de casa. No instante seguinte, ouviu os passos d Matt atrs de si.
      No momento em que chegaram diante da porta, Matt estendeu a mo e ela no teve outra alternativa seno lhe dar a chave da casa. Matt entrou na frente e acendeu
a luz do hall. No primeiro instante, Karen pensou despedir-se dele sem cerimnia, mas depois achou que seria indelicadeza fazer isso, tanto mais que qualquer movimento
brusco que fizesse podia acordar Lisa, que dormia tranqilamente abraada no seu pescoo.
      - Eu j volto.
      Levou a menina para o quarto, despiu-a e deitou-a na cama. Lisa murmurou alguma coisa enquanto Karen lhe vestia o pijama, mas continuou dormindo mesmo assim.
      Ao voltar  sala de estar, Karen encontrou Matt diante da estante dos livros, observando atentamente as fotografias que estavam arrumadas numa das prateleiras.
      - Voc quer tomar alguma coisa?
      - No, muito obrigado - disse Matt, voltando-se lentamente. - Vi diversas fotografias de Lisa, mas nenhuma do pai...
      Karen prendeu a respirao. Parecia que tinha um n na garganta e que a lngua estava completamente seca, grudada no cu da boca.
      - Eu tenho a certido de casamento - disse com frieza. - Voc quer ver?
      - Desculpe. Eu no me referia a isso...
      - A que ento?
      - Fiquei surpreso de no encontrar nenhuma fotografia dele entre as fotos de famlia. Alis, observei tambm que Lisa nunca menciona o pai na conversa.
      Uma onda de dio estava fermentando dentro dela, prestes a explodir de um momento para o outro. Se havia alguma coisa que a deixava fora de si eram os comentrios
dos estranhos a respeito de seu casamento.
      - Nossa, at parece que voc  o advogado ou o promotor da acusao que deseja retirar uma confisso  fora de mim. - Ela respirou com dificuldade e virou
a cabea para o lado. - Eu no tenho nenhuma explicao a dar.
      A crise explodiu sem ela perceber. Limitou-se a piscar nervosamente, a fim de enxugar as lgrimas que rolavam pela face. Matt observou-a em silncio, com uma
expresso interrogativa.
      Alguns segundos depois, sem despedir-se dela, Matt atravessou a sala e saiu pela porta da frente, fechando a porta atrs de si com todo o cuidado. Karen ouviu
o carro manobrar na rua e afastar-se com um ronco silencioso.

      Karen tinha a inteno de deixar Lisa em casa de Jeremy no sbado  tarde e passar algumas horas depois para apanh-la. Seu plano, contudo, no surtiu efeito.
Janine foi cumpriment-la na porta quando Lisa tocou a campainha.
      - Entre um pouquinho, Karen.
      - Eu estou de passagem, Janine. S vim deixar Lisa e vou voltar voando para casa.
      Lisa e Jeremy estavam parados na porta de casa, conversando animadamente e Karen sorriu sem querer ao ver o olhar cheio de tem que Lisa dirigiu ao amiguinho.
      - Ah, entre s um instantinho - insistiu Janine, descendo os degraus da porta em direo ao carro que estava estacionado na calada. - Venha provar uns salgadinhos
que eu fiz. Esto uma delcia.
      - Eu estou de regime - disse Karen com uma risada, abrindo a porta do carro para cumprimentar a amiga.
      - Ento venha ver o bolo de aniversrio.
      Karen no teve outra alternativa seno atender o convite de Janine. As duas entraram em casa e, imediatamente, toparam com uma algazarra medonha de gritos
e gargalhadas provenientes das crianas reunidas na sala. Todas falavam, pulavam e riam ao mesmo tempo. Outras corriam pela casa como se estivessem no quintal. Pareciam
uns foguetes.
      - Voc vai enlouquecer! - exclamou Karen em voz alta para se fazer ouvir por Janine.
      - J estou! - respondeu Janine, com uma gargalhada. - Ns convidamos a classe inteira para o lanche. Jeremy fez questo absoluta. Ele disse para mim: "Mame,
ou bem a gente convida todos os colegas ou no convida nenhum!"
      Karen deu uma risada bem-humorada.
      - Juro por Deus que nunca vi tanta criana junta dentro de casa! A gente podia inventar alguns brinquedos para mant-los sossegados durante alguns minutos.
      - O que voc sugere? - perguntou Janine com animao. - Nessa altura, eu estou adotando qualquer sugesto.
      Ela tambm estava comeando a sentir-se literalmente asfixiada pela avalanche de crianas que no paravam de entrar pela porta da frente.
      - Vamos dividi-los em grupos - sugeriu Karen. - Dez em cada grupo. Ficam todos sentados no cho, em crculo, e passam uma ficha de um para o outro, ao som
de uma msica bem rpida. Aquele ou aquela que estiver com a ficha na mo quando a msica parar,  eliminado da brincadeira. E assim por diante. O que voc acha?
      - Aprovado! S assim a gente sossega os lees durante alguns minutos.
      Meia hora depois, as duas estavam coradas e descabeladas. As crianas, naturalmente, adoraram a idia de haver dois adultos no meio da brincadeira e, em dado
momento, sugeriram que Janine e Karen ficassem de olhos vendados para brincar de cabra-cega.
      As duas estavam de olhos vendados no meio da sala; sendo tocadas pelas crianas que corriam de um lado para o outro, quando uma voz baixa de homem exclamou
da porta:
      - No! Era s isso que faltava. Duas mes de famlia brincando de cabra-cega...
      - Ah, chegou o reforo! - exclamou Janine, retirando a venda dos olhos.
      Karen reconheceu a voz no mesmo instante e voltou-se para a porta com o rosto vermelho de vergonha. Matt Lucas estava parado, com as mos nos bolsos do casaco,
acompanhando a brincadeira com um sorriso divertido nos olhos. A primeira reao de Karen foi apanhar Lisa e despedir-se s pressas de Janine. Ela no estava em
condio de permanecer ali, na presena de Matt, sobretudo depois do vexame que passara no dia anterior.
      Janine, sem perceber o embarao da amiga, comeou a fazer as apresentaes.
      - Esse  meu irmo, Karen. Matt Lucas.
      - Ns j nos conhecemos - comentou Matt com um sorriso. - Inclusive trabalhamos juntos.
      - Que coincidncia! - exclamou Janine. - Karen foi uma mo na roda. Ela me ajudou a domar esses lees. Se no fosse ela, eu estaria louca varrida a essas horas.
No foi, Karen?
      - Dei apenas algumas idias - disse Karen, sem jeito.
      - Jason e Matt vo tomar conta das crianas durante alguns minutos - disse Janine para o marido e o irmo. - Enquanto isso, ns duas vamos trazer os refrigerantes
e os salgadinhos para a sala.
      No fim da tarde, os ltimos convidados foram levados para casa pelos pais e uma certa ordem voltou a reinar na sala de estar. Karen enxugou o ltimo prato
e guardou-o no armrio da copa. Em seguida, retirou o avental da cintura e pendurou-o no cabide da cozinha. Estava com o rosto corado quando passou os dedos entre
os cabelos que caam na testa.
      - Ah, estou precisando tomar um banho urgente!
      - Voc j vai? - perguntou Janine ao v-la apanhar a bolsa nas costas da cadeira. - Fique mais um pouquinho. Ns vamos fazer um lanche s para os adultos.
      - Muito obrigada. Janine, mas eu tenho que ir. J  tarde.
      - Ah, deixe disso. Eu fao questo de que voc prove minha canja.
      - Realmente eu tenho que ir - repetiu Karen. Como podia explicar a Janine que estava louca para sumir da frente de Matt Lucas?
      - H algum esperando por voc?
      - No, no h ningum.
      - Nesse caso, no h motivo para voc sair nessa correria. O jantar est pronto. S preciso esquentar.
      A campainha da porta tocou nesse momento. Janine correu para atender.
      - Deve ser mame que est chegando. Um minutinho s, Karen. Eu volto logo.
      Elizabeth era uma mulher alta, de meia-idade, que rivalizava em simpatia e boa educao com a filha. As duas insistiram para Karen tomar parte no jantar ntimo.
Ela no teve outra alternativa seno aceitar o convite e, com um sorriso de resignao, caminhou em direo  sala de estar, onde Jason preparava alguns aperitivos
no barzinho.
      Matt foi ao seu encontro com um copo de campari na mo.
      - Este foi feito especialmente para voc.
      - Muito obrigada.
      - Voc est surpresa por me encontrar aqui?
      - Para falar a verdade, voc era a ltima pessoa que eu esperava encontrar aqui.
      - Se voc soubesse, no teria vindo?
      - Lisa queria muito vir  festa de Jeremy - disse Karen, evasiva.
      - Mas voc no sabia que eu era o tio do aniversariante.
      - No. Foi uma surpresa.
      Janine apareceu na porta da sala e interrompeu a conversa dos dois.
      - O jantar est servido. Vocs querem escolher seus lugares?
      Matt puxou a cadeira para Karen e sentou-se ao lado dela. Elizabeth estava sentada entre as duas crianas enquanto Janine e Jason ocupavam as duas extremidades
da mesa.
      - Janine me contou que voc trabalha na fbrica - comentou Elizabeth no meio da conversa. - Voc est gostando do ambiente?
      Karen olhou para um lado e para o outro, como se pedisse socorro. O que podia responder diante do olhar irnico de Matt?
      - No faa cerimnia - disse Janine com um sorriso. - Todos ns sabemos que Matt  um patro terrvel...
      - Nem tanto assim - disse Karen sem jeito. - Eu, pelo menos, no posso me queixar.
      - Muito bem. Gostei da resposta. - disse Elizabeth com alegria. - Est vendo, Matt? Algum tomou sua defesa.
      - Faz tempo que voc trabalha na fbrica? - perguntou Jason.
      - Dois meses apenas. Alm disso, eu trabalho s meio perodo.
      - Est vendo como foi bom eu insistir para voc ficar? Se voc tivesse ido embora, no teria encontrado Matt aqui.
      - Pois  - concordou Karen, abaixando a cabea sobre o prato.
      Karen aproveitou a primeira oportunidade para despedir-se de Janine. S respirou aliviada quando entrou no carro e partiu na direo de casa. Naquela noite,
como no acontecia h muito tempo, teve um pesadelo horrvel com Brad. Sonhou que o primeiro marido tinha voltado e que os dois estavam de novo juntos, embora se
odiassem de todo corao.

      No dia seguinte, conforme estava previsto, Grace apareceu na hora do almoo. Lisa aproveitou para contar todas as novidades da semana  av.
      - E na sexta-feira, o que voc fez?
      - Mame e eu fomos jantar com Matt num restaurante.
      - Num restaurante? - perguntou Grace,.com os olhos brilhantes de curiosidade.
      - No foi, mame?
      Karen balanou a cabea em silncio.
      - E ontem, o que voc fez?
      - Ontem eu fui  festa de aniversrio na casa de Jeremy. E sabe quem encontramos l, vov?
      - No, no fao idia.
      - Matt. Ele  tio de Jeremy.
      - No me diga! - exclamou Grace, sem entender at ento o lugar que Matt ocupava na vida da filha.
      - Matt tem um carro com ar-condicionado - continuou Lisa. - E logo que voc abre a porta comea a tocar msica.
      - Que beleza! - exclamou Grace. - E onde ele mora?
      - Matt mora numa casa enorme e tem um cachorro chamado Dick.
      - Mora sozinho nessa casa enorme?
      - Ele tem um casal de empregados - disse Karen com um suspiro.
      Grace ignorou a interveno da filha e continuou dirigindo sua ateno para Lisa.
      - Quer dizer que voc teve uma semana cheia?
      - Foi. Chessima - respondeu Lisa com o rosto srio. - Sem falar que tirei nota dez na escola.
      - Ah, meus parabns! - exclamou Grace, dando um beijo na testa da menina. - Agora v buscar suas coisas para a gente ir embora. No se esquea de levar o livro
que voc est lendo.
      - Eu j arrumei tudo na minha sacola.
      No instante em que Lisa saiu da sala, Grace virou-se para Karen com expresso interrogativa.
      - Matt? Quem  esse homem, Karen? Um amigo seu? Voc no me disse que conhecia um homem chamado Matt. Matt o qu? Vocs tm sado juntos?
      Karen deu um suspiro e comeou a responder s perguntas da me pela ordem de chamada.
      - Eu falei, voc  que no lembra mais. O nome completo dele  Matt Lucas. Segundo, eu trabalho na companhia onde ele  o presidente. Terceiro, eu no estou
flertando com ele, como voc supe. Apenas no pude recusar um convite para jantar fora. Sobretudo porque o convite estendia a Lisa.
      - Ah, minha filha, no seja ingnua! Matt convidou Lisa apenas para ter uma desculpa...
      Karen fez uma careta de desagrado. Era impossvel discutir objetivamente com sua me.
      - Bem, de qualquer maneira, eu no vou mais sair com ele. Fim de papo.
      Grace ouviu o comentrio em silncio, como se assimilasse a informao.
      - Que festa foi essa de que Lisa falou?
      - Em casa de Jeremy, um menino que estuda na mesma escola que Lisa. Eu no podia imaginar que Matt estaria l, muito menos que era irmo de Janine, a dona
da casa.
      - E Matt ento  o presidente da companhia onde voc trabalha?
      - Exatamente.
      - Pelo amor de Deus, Karen, como voc pode dizer isso com tanta indiferena?
      - O que voc quer que eu faa? Que grite pelas ruas que Matt e eu estamos saindo juntos?
      - No se faa de desentendida.
      - Ah, j sei. Voc quer que eu case com ele e d um pai a Lisa. A mesma histria de sempre. Eu j ouvi esse conselho uma dezena de vezes...
      - Nem todos os homens so iguais a Brad, minha filha.
      - Eu no quero correr esse risco de novo - disse Karen com determinao. - Uma vez foi o bastante.
      - Eu no gosto de v-la sozinha. Esperava que voc se esquecesse de Brad com o passar dos anos.
      - Mas eu no esqueci. Pelo contrrio, ele continua atravessado na minha garganta mais do que nunca.
      - Voc falou com Matt a respeito do seu primeiro casamento?
      - No. Por que haveria de falar? Eu no quero a compaixo de ningum, muito menos a dele.
      - No seja obstinada, filha. Matt tem o direito de saber.
      - Por qu? Voc fala como se eu estivesse noiva de Matt! Vamos com calma, mame. Matt nunca falou em casar e, mesmo que tivesse falado, eu no teria aceitado.
      - No diga isso, filha! Voc no pode viver sozinha a vida inteira. Lisa vai crescer um dia e sair de casa. O que voc vai fazer de sua vida?
      - Eu saberei encontrar alguma coisa para encher meu tempo. Pode deixar.
      - Voc diz isso agora.
      - Bem, de qualquer modo, ainda falta muito at l. No momento eu no estou pensando nessas coisas. Vamos almoar?

      No fim da tarde, depois que Grace levou a neta para passar alguns dias na sua casa em Whangarei, Karen refletiu longamente sobre a conversa que tivera na hora
do almoo com a me. De fato, a casa era muito triste sem a presena de Lisa. Aps passar alguns minutos andando de um lado para o outro das salas vazias, Karen
foi tomada por um terrvel mal-estar, como se estivesse com os primeiros sintomas de gripe. Entretanto, no sentia dor de garganta, nem estava com o rosto quente.
S podia ser a ausncia de Lisa que criava esse clima angustiante de vazio. Ela no estava habituada  solido, era essa a verdade. Lembrou-se das palavras de Grace
 mesa do almoo. O que seria de sua existncia no dia em que Lisa casasse e fosse embora de casa?

      Na manh seguinte, ao entrar na sala, Karen encontrou uma pilha de relatrios e de outros documentos em cima de sua mesa. Estava selecionando o material por
ordem de urgncia quando ouviu uma voz feminina perguntar atrs de si:
      - Ento, como vai de namoro?
      Voltou-se surpresa e avistou Susan, a morena de cabelos ondulados que trabalhava na diretoria.
      - Desculpe, no entendi o que voc disse.
      - Eu perguntei como vai de namoro - repetiu Susan em voz alta. - Daqui a gente v tudo o que se passa no estacionamento.
      - Tudo o qu? - perguntou Karen, fazendo-se de desentendida. - Realmente no sei do que voc est falando.
      - Ah, no se faa de sonsa! Todo mundo viu voc sair de carro com Matt. Voc deve ter muita papa na lngua! Matt em geral se conduz com maior discrio...
      Karen arregalou os olhos diante do comentrio maldoso de Susan. Ela no costumava levar desaforos para casa.
      - Voc est delirando, garota!
      - Estou? A quem voc pretende enganar, belezinha? Eu no nasci ontem. S quero preveni-la de uma coisa: no confie nas promessas de Matt. Eu digo isso por
experincia prpria.
      - Escute, Susan, eu no tenho nada, absolutamente nada com Matt. Voc est imaginando coisas que no existem.
      Sem perder mais tempo, Karen ligou a mquina eltrica e comeou a bater os primeiros relatrios do dia.
      Estava uma pilha de nervos no fim do expediente. Em vez de desce pela escada, como era seu costume, tomou o elevador para o trreo.
      Primeiro fora Mike com suas indiretas maldosas. Agora era Susan. Isso estava passando da conta. Ainda bem que pedira demisso e ia sair do emprego na sexta-feira,
o mais tardar. Ou talvez antes disso, se a situao se tomasse insuportvel.
      A primeira pessoa que ela viu  sua frente, quando a porta do elevador abriu, foi Matt. Ele estava parado no meio do saguo da entrada, com a mo no bolso
do casaco.
      - Ol, como vai?
      - Voc me desculpe, mas estou atrasadssima. Tenho um encontro  uma.
      Karen despediu-se na correria e dirigiu-se para o carro, que estava estacionado perto dali. Dessa vez pelo menos conseguira escapar de Matt sem maiores problemas.
      A casa parecia vazia sem a presena animada de Lisa e as horas compridas da tarde tinham que ser ocupadas com alguma atividade construtiva, caso contrrio
cairia na maior depresso. A mquina de costura atendeu  necessidade do momento. Karen tinha comprado alguns metros de tecido na semana anterior, com o propsito
de costurar uns vestidinhos de vero para Lisa. Esse trabalho tomaria uma boa parte da tarde. Quando terminasse, faria o jantar e assistiria a um programa na televiso,
 noite.
      s seis em ponto Karen guardou a mquina de costura e examinou a produo do dia. Terminara praticamente todas as costuras  mquina. Faltava apenas dar o
acabamento  mo. Espreguiou-se, virou a cabea para um lado e para o outro, a fim de flexionar os msculos doloridos do pescoo e dirigiu-se com um suspiro  cozinha.
      Faria um jantar ligeiro, com poucas calorias. Tirou os legumes e as verduras da geladeira e comeou a descasc-los em cima da pia. Estava distrada quando
a campainha da porta tocou. Quem podia ser? No estava esperando ningum quela hora. Provavelmente era algum vendedor que vinha fazer a demonstrao do ltimo modelo
de aspirador de p.
      Enxugou as mos midas no avental e foi sem pressa at a porta da frente.
      - Quem ?
      Nos ltimos tempos, ela no abria a porta sem primeiro saber quem estava do lado de fora. Era mais prudente diante dos assaltos freqentes que ocorriam no
seu bairro.
      - Sou eu.
      - Eu quem?
      - Voc no me conhece mais? Matt.
      Ela no podia se enganar a respeito da voz familiar. Mesmo assim, abriu apenas um pequeno vo.
      - O que voc quer?
      Matt viu a corrente que prendia a porta e franziu a testa.
      - Eu no quero ser acusado de arrombar a porta.
      Sem dizer uma palavra, Karen retirou a corrente do fecho e abriu a porta. Matt entrou e ficou parado um instante no meio do hall de entrada, com a mo no bolso
do casaco.
      - Eu estou fazendo o jantar. Voc est com fome?
      - Eu vim convid-la para jantar fora.
      - Impossvel!
      - Por qu?
      - Porque eu j descasquei os legumes e s falta cozinh-los.
      A explicao no era muito convincente, mas foi a primeira que lhe ocorreu.
      - Guarde-os na geladeira para amanh.
      - Eu no vou jantar fora!
      - Por qu, Karen?
      Antes que ela pudesse responder, Matt segurou-a pelo pulso e puxou-a na sua direo. Apanhada de surpresa, ela levou alguns segundos para compreender o que
estava acontecendo. Quando voltou a si do seu espanto, estava com o corpo colado ao dele, a boca amassada pelos lbios grossos. Nos primeiros segundos, ficou aterrada.
Parecia que tinha sido imobilizada por algum passe de mgica. No instante seguinte, contudo, sua reao foi instantnea. Comeou a se debater como uma louca e bateu
no peito dele com os punhos fechados.
      Matt porm continuou a enla-la pela cintura, indiferente aos socos que recebia. Em seguida, segurou-a pelos cabelos e dobrou a cabea dela para trs, cobrindo
de beijos as partes expostas do pescoo, do busto, do ombros.
      Pouco a pouco ela foi cedendo sob as carcias que se estendiam  partes sensveis do seu corpo e que provocavam ondas de calor e de prazer. Finalmente, quando
Matt a beijou na boca, ela soltou uma exclamao abafada de gozo e abandonou-se languidamente nos braos dele, sem fora para reagir. As pernas estavam moles como
se no pudessem sustentar-se sozinhas. Ela passou os braos em volta do pescoo musculoso e apertou-o contra si, esquecida de tudo, a no ser do prazer que a consumia.
      Em dado momento, Matt afastou-se e observou-a por entre os olhos entreabertos.
      - O que foi?
      - Voc ainda pergunta!
      Ela levantou a mo e correu os dedos trmulos por entre os cabelos que lhe caam no rosto. A face estava pegando fogo e os lbios estavam inchados de desejo.
      - V se trocar. No demore.
      Karen deu um suspiro e encarou-o no fundo dos olhos, sem pestanejar.
      - Eu no me rendi ainda.
      Essa afirmao, no entanto, parecia ser o oposto da verdade, maneira ela estava perturbada pelo episdio recente.
      - Depois do jantar conversaremos sobre isso.
      - Eu ia dormir cedo...
      -  prefervel jantar fora do que comer sozinha sem ningum para conversar.
      - S jantar?
      - Dou minha palavra. Reservei uma mesa para dois no Hobson. O servio  excelente. Vamos, nimo! Troque de roupa e passe um pente pelos cabelos.
      - Tambm no precisa ser nessa correria! - resmungou Karen, dirigindo-se ao quarto.
      Depois do banho rpido de chuveiro, ela sentou-se diante da penteadeira e pintou os olhos e a boca. Em seguida, calou as botas de cano longo que tinha mandado
fazer e que combinavam com o vestido bege de malha. A noite estava ligeiramente fria e as botas protegiam as pernas dos golpes de vento.
      - Estou pronta - disse em voz baixa, ao voltar  sala, sem manifestar um entusiasmo muito grande pelo programa inesperado. - Voc quer tomar alguma coisa antes
de sair?
      - No, muito obrigado. Vamos tomar um aperitivo no restaurante.
      Karen sentou-se em silncio no banco macio do Jaguar e avistou o perfil anguloso recortado sobre a janela. O que aconteceria se perturbasse a segurana irritante
de Matt?
      Ela presenciara antes uma breve exploso de raiva por parte dele e sabia que Matt se tomava perigoso quando levado ao limite de. sua pacincia. Era prefervel
mostrar-se educada, concluiu, voltando o rosto para a frente. No tinha nada a ganhar com provocaes gratuitas.
      - O que voc quer? - perguntou Matt quando se sentaram  mesa do restaurante.
      Matt devia ser um freqentador bastante conhecido, pela maneira como o maitre o recebeu na porta e o conduziu a uma mesa sossegada de canto.
      - Escolha voc.
      - Voc no tem nenhuma preferncia?
      - Por gente ou por comida?
      Ele sorriu com o canto dos lbios.
      - Por comida.
      - Eu como de tudo.
      - Assim  que eu gosto! Voc est contente por ter vindo?
      - Contentssima!
      - Mentira.
      Matt percorreu rapidamente o menu e fez o pedido ao garom que aguardava a alguns passos da mesa, com uma atitude cerimoniosa.
      Depois do coquetel de camaro, que estava uma delcia, o garom serviu o fil ao ponto com batatas coradas e legumes. O restaurante merecia realmente a reputao
que gozava. Tudo era gostoso e bem apresentado, inclusive os canaps.
      - Por que voc estava de mau humor quando eu cheguei?
      Karen parou repentinamente de comer a sobremesa, figos em calda com creme fresco de leite e levantou a cabea, surpresa com a pergunta.
      - Eu estava de mau humor? No sabia.
      - Voc s faltou me bater.
      - Voc tem certeza de que fui eu? No foi uma outra!
      Ele deu um sorriso.
      - Se voc no quer contar, deixe para l. Lisa fez boa viagem?
      - Mame no telefonou ainda contando as novidades. Mas espero que sim.
      - Quando ela vai voltar?
      - No fim das frias.
      - Voc vai passar quinze dias sem v-la?
      - Voc est maluco! Eu vou visit-la todos os fins de semana, se Deus quiser.
      - Voc no pode reservar um fim de semana para mim?
      Ela levantou a cabea e fitou-o em silncio.
      - Podamos passar o fim de semana na ilha de Pakatoa - acrescentou Matt. - Voc j esteve l?
      Pakatoa, o paraso de cores e de sol, estourou como um claro na imaginao dela durante a frao de segundo em que levou para respondeu  pergunta.
      - No, nunca estive l. Mas ouvi dizer que  lindo de morrer.
      - Lisa poder ir conosco, naturalmente - acrescentou Matt aproveitando o entusiasmo sbito dela. - Voc poder busc-la na casa de sua me na sexta de manh.
      De repente, sem nenhum motivo aparente, Karen abaixou a cabea e assumiu uma expresso dura, tristonha.
      - Muito obrigada pelo convite. Fica para outra vez.
      - O que aconteceu? Por que voc mudou de idia subitamente?
      - Eu no Posso ir. Realmente no posso - disse Karen com obstinao.
      - Lisa vai conosco. Se voc preferir, convide Grace tambm. Eu tenho certeza de que ela vai adorar o passeio. No  todos os dias que voc tem a oportunidade
de visitar a ilha de Pakatoa.
      - Por que voc no convida uma de suas amigas? Seria muito mais divertido...
      - Se convidei voc  porque desejo sua companhia.
      - Sinto muito, mas no d.
      O garom aproximou-se com o bule de caf e duas xcaras.
      - Voc toma caf?
      - Tomo. Com pouco acar.
      Karen continuou em silncio o resto da noite e limitou-se a proferir monosslabos, como se tivesse um n na garganta. Matt voltou para casa pela avenida beira-mar
e ela observou distraidamente os pontinhos de luz que tremiam em cima das guas paradas da enseada. Era uma noite perfeita para se passear na praia de mos dadas,
pensou. Mas no com Matt, evidentemente.
      Uma parte dela no desejava ter nada com ele; a outra, no entanto, desejava provar novamente as delcias do amor, sentir no peito as palpitaes da paixo.
Mas era loucura pensar nessas coisas ao lado de Matt.
      As cicatrizes do primeiro casamento tinham sido muito fundas e dolorosas para correr esse risco uma segunda vez. Por nada deste mundo ela desejava reativar
o sofrimento da rejeio.


      Captulo IV

      - O que foi?
      Karen voltou lentamente a cabea e percebeu que o carro estava parado diante do porto.
      - U, j chegamos?
      - Voc estava to distrada que nem percebeu.
      - Estava pensando.
      - No qu?
      - Nada muito importante. Adeus, Matt. Muito obrigada pelo passeio.
      - Vamos almoar juntos amanh?
      - Amanh eu no posso.
      - Por qu?
      - Porque no quero mais sair com voc.
      - Assim, sem mais nem menos?
      Matt segurou-a pelo queixo e acariciou os lbios com a ponta do dedo.
      - Por favor, no...
      Suas palavras foram silenciadas pelo beijo ardente que no pedia nada de volta, que se contentava apenas em tomar. A vontade dela de resistir sucumbiu lentamente
quando ele acariciou as partes sensveis do seu corpo. Foi somente no instante em que Matt desabotoou a blusa e enfiou a mo por baixo do vestido que ela voltou
a si, com um sobressalto. O que estava acontecendo? Era loucura abandonar-se desse jeito, mas no tinha fora nem vontade para levantar-se dali.
      - Vamos entrar - murmurou Matt, beijando-a nos olhos.
      A sugesto assustou-a. Ela arregalou os olhos, num misto de medo e de surpresa.
      - No, eu no quero!
      - Mentirosa. Voc deseja isso tanto quanto eu. Para que fingir?
      - Eu no quero! - repetiu Karen obstinadamente.
      - Quem foi que a feriu, Karen? Seu marido?
      - Eu no quero falar nesse assunto!
      - Por que voc no me deixa ajud-la?
      - Era s o que faltava! Recorrer a um homem que no pensa noutra coisa seno em ir para a cama comigo...
      - No  verdade.
      Ela voltou-se e encarou-o no fundo dos olhos.
      - Voc nega que esteja com essa inteno?
      - No, de modo algum. A idia de fazer amor com voc  muito excitante, mas eu prefiro as mulheres que aceitam espontaneamente e que no arranham o rosto do
homem com as unhas...
      - Procure outra, ento! Eu no sirvo para voc.
      - Voc s precisa aprender boas maneiras.
      Karen engoliu em seco, fervendo de dio. Ela queria agredi-lo fisicamente, feri-lo. Em vez disso, abriu a porta do carro com um movimento brusco.
      - Eu vou acompanh-la at a porta.
      - No precisa. Eu vou sozinha.
      Quando ela enfiou a mo na bolsa e apanhou a chave de casa, estava to trmula que mal conseguiu acertar o buraco da fechadura. Sabia que Matt estava ao seu
lado, observando-a em silncio.
      Ela abriu finalmente a porta, acendeu a luz do hall e somente ento voltou-se para ele.
      - Boa noite, Matt. Muito obrigada pelo jantar.
      - Boa noite, Karen. Durma bem.

      A manh seguinte foi relativamente ,tranqila. Nem Susan nem Mike apareceram para infernizar sua vida. Karen aproveitou para pr os trabalhos atrasados em
dia e a manh passou mais rapidamente do que tinha imaginado, contrariando o pressentimento que tinha tido, ao sair de casa, de que fatos desagradveis estavam 
sua espera na fbrica.
      Quando faltavam alguns minutos para o meio-dia, Karen notou um silncio e uma atividade fora do comum na sua seo, como se uma visita importante tivesse entrado
na sala. Voltou a cabea com um gesto nervoso e avistou Matt caminhando na sua direo.
      - Vim convid-la para almoar.
      - Eu preciso terminar este relatrio. Vou levar mais alguns minutos.
      - Deixe o trabalho para depois. Vamos. Eu estou atrasado.
      Karen levantou-se lentamente, com a ateno voltada para a mquina de escrever, e leu rapidamente o relatrio que havia batido alguns minutos antes, para ver
se estava correto e se no deixara passar nenhum erro. Em seguida, sem nenhuma pressa, retirou as folhas datilografadas da mquina e colocou-as em cima da mesa,
na caixinha apropriada.
      Sem olhar para Matt, apanhou a bolsa que estava pendurada na cadeira e dirigiu-se  porta da sala. Matt adiantou-se e lhe deu passagem com um gesto educado.
      - Por que voc est com essa cara? - perguntou, quando se viram a ss no corredor.
      - Eu no gosto que voc venha me buscar na sala.
      - Ah,  isso, ento?
      - , isso mesmo. Eu odeio ser alvo da ateno dos outros.
      - Desculpe.
      - J fui criticada duas vezes por ter aceito uma carona sua. Imagine se eles soubessem que eu vou almoar com voc!
      - Ningum vai saber.
      - Eu sei disso!
      Eles atravessaram o porto da fbrica e se dirigiram a passos rpidos para o carro estacionado perto dali.
      - O que voc tem contra mim? - perguntou Matt, abrindo a porta do Jaguar.
      - Nada! Eu s no entendo por que voc no me deixa em paz no meu cantinho. Eu estava to bem antes...
      - Voc j disse isso uma vez.
      - Mas no adiantou nada, pelo visto! - exclamou Karen, com uma irritao crescente. - Escute, acho bom a gente se despedir aqui. Eu no quero almoar com voc.
Mesmo porque a comida no vai descer pela garganta.
      Matt fitou-a com o canto dos olhos, o rosto vermelho de raiva.
      - H momentos em que eu tenho vontade de lhe dar umas palmadas...
      - Se voc tocar em mim, vai se arrepender!
      - Lembre-se de que eu sou o mais forte.
      Karen ouviu a ameaa de olhos arregalados, o corao batendo a toda dentro do peito. O dio e o medo tumultuavam suas emoes.
      - Por favor, pare o carro! Eu quero descer.
      - Agora  tarde. Ns vamos almoar no Antoine, voc queira ou no.
      Karen voltou a cabea para a janela, enquanto a raiva ia se dissolvendo lentamente diante da paisagem que desfilava ao longe. Ela estava cansada de discutir,
de brigar, de agredir e ser agredida. Era um cansao mental, no fsico.

      Conforme Matt tinha previsto. Karen sentiu-se melhor no ambiente acolhedor do restaurante francs. Para distrair-se, contou todos os vasos de flores e espelhos
que havia na sala. Alm disso, Matt falou animadamente durante a refeio e ela limitou-se a sorrir, balanar a cabea e a fazer alguns breves comentrios. Eram
quase duas horas quando terminaram de tomar a segunda xcara de caf.
      - Voc aceita um licor?
      - No, muito obrigada.
      - Quer mais caf?
      - No.
      Ele tirou o isqueiro do bolsinho da cala e acendeu o cigarro que estava espetado entre os lbios. A viso da boca sensual despertou uma recordao recente
na sua memria. Quantas horas fazia que tinham se beijado apaixonadamente? A lembrana deixou-a toda arrepiada. Era loucura manter um relacionamento com algum que
tinha o poder de perturb-la dessa forma. Matt possua um encanto inegvel, um magnetismo animal que estava presente nos seus menores gestos. No riscar do isqueiro,
na maneira segura como trocava as marchas do carro, no modo que tinha de encar-la no fundo dos olhos...
      - Voc quer jantar comigo?
      - Quando?
      - Hoje  noite.
      - Impossvel. Tenho um mundo de coisas para fazer em casa. Eu estou sem empregada.
      - Voc j deu a mesma desculpa antes.
      - Pode ser.
      - O que lhe desagrada em mim? Minha pessoa ou minha posio?
      Ela afastou os olhos para o canto da sala. Havia mais um vaso de flor que no tinha includo na sua contagem anterior. Eram vinte e sete ao todo.
      - Vamos? Est na minha hora.
      Matt ignorou o pedido e cobriu a mo dela com a sua.
      - Posso passar s sete em sua casa?
      - Eu no posso jantar com voc, homem!
      - Nem se for em casa de Janine?
      - Janine me convidou para jantar? - exclamou Karen, surpresa.
      - Ela vai fazer um souffl em sua homenagem.
      - Mentira!
      - Juro.
      - Por que voc insiste? Eu j disse uma dezena de vezes...
      - Eu sei. Voc j me disse uma dezena de vezes que no simpatiza comigo. Acontece que suas palavras no dizem toda a verdade.
      Matt levantou-se e puxou a cadeira para ela.
      - Vamos?
      O vento frio corou seu rosto plido e desfez a sensao de calor que vinha das orelhas. Matt adivinhara. Havia um conflito dentro dela, uma ambivalncia constante
entre o desejo e a rejeio. Ela afundou no banco do carro e guardou silncio at o momento em que Matt desligou o motor no estacionamento da fbrica.
      - Eu passo s sete em sua casa.
      Karen virou-se para ele coma mo na maaneta da porta.
      - Eu vou mudar de ttica. Adotarei o sistema dessas mulheres que no do um minuto de sossego aos homens. S assim voc vai se cansar de mim.
      - No custa nada tentar.
      - Voc no precisa me pegar. Eu vou diretamente a casa de Janine.
      - Combinado.

      Karen passou o resto da tarde fazendo compras. Embora seu guarda-roupa de meia-estao fosse bem variado, sentiu necessidade de comprar um vestido novo para
ir ao jantar em casa de Janine. Alm disso, o simples fato de sair de casa com a inteno de fazer compras era um pretexto para se distrair at o fim da tarde. Sem
falar que a hora passada no cabeleireiro lhe daria maior disposio para enfrentar Matt e a famlia de Janine.
      Passava das seis quando Karen voltou para casa. Aps abrir os embrulhos e pendurar as roupas nos cabides do armrio, Karen despiu-se e entrou embaixo do chuveiro,
de onde saiu sentindo-se outra.
      Com a toalha enrolada em volta do corpo, sentou-se diante da penteadeira e comeou a fazer a maquilagem com todo o cuidado. Escolheu a sombra azul que combinava
melhor com a cor dos olhos e desenhou os lbios com pincel. Feito isso, mirou-se no espelho grande do armrio, com um vidrinho de Arpege na mo, e borrifou o pescoo,
atrs das orelhas e nos pulsos.
      No havia nenhum carro estacionado na calada quando parou em frente  casa de Janine. Pelo visto, Matt no tinha chegado ainda. Aps trancar o carro, Karen
rumou diretamente para a porta. Tocou a campainha e aguardou um instante, com a cabea voltada para trs. A rua de Janine era mais arborizada que a sua e todas as
casas tinham um jardim na frente.
      - Entre. Janine no vai demorar.
      Ela voltou-se surpresa ao ouvir a voz de Matt nas suas costas.
      - U, voc j chegou? No vi seu carro.
      - Ben me trouxe e voltou para casa. O que voc quer tomar? - perguntou Matt, ao se dirigirem para a sala.
      Uma bebida nessa altura era o que ela mais necessitava para manter a cabea no lugar, pensou Karen rapidamente.
      - Um campari, por favor.
      Matt foi at o barzinho e Karen acompanhou-o com a vista, admirando o porte e o andar confiante do homem que tinha o poder de perturb-la. Matt estava de terno
cinza-escuro, com listras bem finas, camisa cor de areia e gravata preta de seda. Ele se voltou com o copo de campari na mo.
      - Voc combinou com sua me o passeio do fim de semana!
      - Ainda no.
      - Se voc quiser, eu posso telefonar para ela.
      - Agora?
      - .
      - Eu ainda no decidi se vou ou no.
      - Eu j fiz as reservas no hotel. Uma sute para vocs trs e um quarto para mim.
      - Voc no perde tempo!
      - Eu sou um homem de ao, Karen. - Ele estendeu a mo e tocou de leve no seu queixo. - Vamos telefonar para sua me?
      Era impossvel recusar alguma coisa a ele.
      - Est bem - disse Karen com um suspiro de resignao. - Voc ganhou. Eu vou telefonar.
      Matt tirou o fone do gancho e estendeu-o para ela. Karen discou o nmero da ligao interurbana e aguardou alguns segundos, a cabea baixa, os olhos nas pontas
dos sapatos.
      - Mame? Sou eu, Karen. Como voc est passando? No, no houve nada. Est tudo bem por aqui. Eu estou telefonando para saber notcias de vocs. Como Lisa
chegou?
      - Ela est ,adorando a estadia. E voc? Alguma novidade?
      - Tudo na mesma. Escute, me...
      - Aconteceu alguma coisa, Karen? Voc est com a voz sumida.
      - Est tudo bem. Eu estou meio rouca.
      - Voc foi ao mdico?
      - No, eu no tenho nada.  apenas uma irritao na garganta. Escute, Matt convidou a gente para passar o fim de semana fora... na ilha de Pakatoa. Voc gostaria
de ir?
      - No me diga! - exclamou Grace com animao. - Que maravilha. Eu tambm estou includa no convite?
      - Est. Voc e Lisa.
      Karen lanou um olhar para o lado, consciente de que Matt estava ouvindo tudo o que Grace dizia ao telefone. A voz dela era naturalmente alta e estridente.
Matt aproximou-se dela de propsito e roou o brao no ombro nu.
      - Voc est ouvindo, Karen?
      - Estou ouvindo perfeitamente, me. No precisa gritar.
      - Eu no estou gritando. Eu perguntei o dia do passeio.
      - Sbado que vem.
      Matt retirou o fone da mo de Karen e levou-o ao ouvido.
      - Grace? Quem est falando aqui  Matt Lucas. Como est passando? Karen e eu gostaramos de convid-la para passar o fim de semana conosco na ilha de Pakatoa.
Eu j reservei os quartos e estava aguardando apenas uma confirmao sua. Voc vem conosco? timo. Vou transmitir o recado a Karen. Muito prazer em conhec-la e
at sbado. Lembranas a Lisa.
      Karen estava boquiaberta quando Matt lhe estendeu o fone. Balbuciou algumas palavras de despedida e colocou o fone no gancho.
      - Por que voc fez isso?
      - O qu?
      - Voc fez de propsito! Para mame ficar toda animada com nosso namoro. Isso  o cmulo! Voc abusa realmente de sua posio.
      - O que voc quer?  a lei do mais forte.
      - Voc me paga!
      Em vez de reagir  sua ameaa, Matt segurou-a pelos pulsos e beijou-a na boca. Karen queria defender-se, protestar, mas continuou imvel, com os braos cados
ao lado do corpo. Ela nunca fora beijada dessa forma antes. O beijo amolecia suas pernas, derrubava suas defesas. Ela se tomava uma criatura submissa, possuda pela
volpia que a envolvia da cabea aos ps como um vu de esquecimento.
      Quando abriu finalmente os olhos, encontrou o olhar dele fixo no seu rosto, como se quisesse memorizar cada um de seus traos.
      - Voc  mais bonita sem pintura - disse Matt, percorrendo com a ponta do dedo o contorno dos lbios. - Sua pele  macia como a penugem de uma ave. Voc no
precisa cobri-la com nada.
      Antes que Karen pudesse fazer algum comentrio, ou tentar corrigir os danos causados  maquilagem pelos beijos trocados com Matt, a campainha da porta tocou.
      - Janine e Jason esto de volta - anunciou Matt. - Vamos receb-los?

      O resto da noite transcorreu num clima de animao. Karen estava to absorta na conversa que mal prestou ateno ao menu que Janine tinha feito especialmente
em sua homenagem. Percebeu apenas que o souffl de espinafre estava uma delcia e que havia um molho especialmente gostoso que acompanhava o rosbife. Janine e Jason
rivalizavam um com o outro em simpatia e fizeram todo o possvel para deix-la  vontade. Foi isso, alis. o que aconteceu. Mesmo assim, ela continuava consciente
da presena de Matt na sala e havia uma dvida que no lhe saa da cabea: por que Matt tinha organizado esse jantar em famlia? Qual era sua inteno, exatamente?
      Passava da meia-noite, quando ela se despediu dos donos da casa. Matt acompanhou-a at o carro e bateu a porta quando ela se instalou na frente do volante.
      - Juzo.
      - No se preocupe. Eu sou ajuizada por natureza.

      Karen passou a manh seguinte. num estado de nervosismo extremo, aguardando a qualquer momento um telefonema de Matt convidando-a para almoar. Seu receio,
porm, no se confirmou. Ao meio-dia em ponto ela deu por encerrado o trabalho, guardou seus objetos de uso pessoal na gaveta e apanhou a bolsa pendurada na cadeira.
      Ao descer no estacionamento, olhou rapidamente em volta e no avistou o Jaguar em parte alguma, o que a deixou ligeiramente desapontada.
      Quando o telefone tocou s seis e meia da tarde, ela correu para atend-lo, pensando ser Matt. Mas no era. Sentiu-se frustrada e irritada ao mesmo tempo.
Procurou tranqilizar-se, pensando que teria recusado o convite dele para jantar fora. Entretanto, o fato de no receber nenhum telefonema dele, na parte da manh
nem da tarde, deixou-a mais decepcionada do que queria admitir.
      No havia outra alternativa seno passar a noite sozinha em casa e, aps muitos anos, essa perspectiva pareceu-lhe terrivelmente melanclica.
      De repente ocorreu-lhe uma idia. Podia telefonar para Brbara e convid-la para ir ao cinema.
      - Brbara? Sou eu, Karen. Tudo bem? Mais ou menos. Voc vai fazer alguma coisa hoje? No? Jura? Olhe l! Est bom. Eu vou dar um pulo a.
      Karen passou o pente nos cabelos, apanhou a bolsa a tiracolo e foi encontrar-se com Brbara. As duas foram ao cinema e deram boas risadas com a comdia que
assistiram.
      Estavam tomando chocolate na cozinha da casa de Brbara quando a conversa assumiu um carter mais ntimo.
      - Por falar nisso, como vai seu patro?
      Karen estava passando gelia na torrada e a pergunta apanhou-a desprevenida.
      - Vai bem. Porqu?
      - Voc ainda antipatiza muito com ele?
      - Muito! - exclamou Karen com uma risada.
      - Como  possvel? Ele me parece um homem to simptico...
      - Ele  simptico, charmoso, o que voc quiser... mas no  meu tipo.
      - Olhe l! - comentou Brbara com um risinho. - Depois no v voltar atrs... Matt tem a fama de ser irresistvel. Se ele dirigir seu magnetismo pessoal na
sua direo, voc est perdida!
      Karen ouviu o comentrio em silncio, consciente de que havia muita verdade nas palavras da amiga. Terminou de comer a torrada com gelia e mudou de assunto.

      s sete e meia da manh seguinte, entrou no Fiat s pressas e partiu a toda em direo  fbrica. Como acontecia toda vez que estava atrasada, o trnsito colaborou
ainda mais para irrit-la. Faltavam cinco minutos para as oito quando chegou na fbrica. Trancou o carro na correria e tomou o elevador no saguo central.
      Mal tinha acabado de sentar-se diante da mquina de escrever, o telefone tocou.
      - Al?
      - Karen? Sou eu, Pamela. Matt quer falar com voc.
      - Agora?
      - Neste minuto. Ele tem uma reunio s nove.
      - J vou.
      Era idiota prender a respirao e sentir as pernas moles s porque Matt a chamava na sua sala. Mesmo assim, ela estava uma pilha de nervos quando Pamela introduziu-a
na sala da diretoria e fechou a porta atrs de si.
      - Voc me chamou?
      Matt estava de costas para a porta, em p junto da janela. Ele se voltou e aproximou-se dela com a indolncia que lhe era habitual.
      - Chamei.
      Ele prolongou durante mais alguns segundos o clima de suspense.
      Provavelmente fazia isso de propsito, a fim de afirmar sua posio de superioridade. No fundo, ela ocupava um lugar insignificante na organizao, enquanto
ele era o chefe, o homem que dominava do alto o trabalho e a produo de dezenas de empregados.
      - O que voc quer? - disse Karen, irritada com a durao do silncio. - Eu no costumo ler o pensamento dos outros...
      Matt deu um risinho cnico, levou o cigarro  boca e puxou uma tragada comprida, soltando a fumaa para o alto.
      - Voc no lembra de nada?
      - No.
      - Nem de nosso programa de amanh?
      - Ah!
      Ele colocou o cigarro no cinzeiro de metal e apoiou as duas mos abertas na tampa da mesa, observando-a fixamente.
      - A viagem de carro leva duas horas, se tudo correr bem. Eu gostaria de chegar a Pakatoa antes de escurecer. Vou passar para apanh-la s trs, est bem?
      O primeiro impulso dela foi dizer que tinha mudado de idia e que no ia mais. Entretanto, no podia fazer tudo o que lhe passava pela cabea. Grace estava
de malas prontas e Lisa ficaria decepcionadssima se o passeio fosse adiado na ltima hora. Era injusto entristecer as duas por um motivo puramente pessoal.
      - O que  preciso levar? - perguntou por fim.
      - Roupa de banho, bronzeador, seu perfume predileto - disse Matt com um sorriso. - O mar est frio nessa poca do ano, mas h uma piscina de gua quente no
hotel.
      - No seria bom levar algumas comidas?
      - No  preciso. O hotel tem um excelente restaurante. Por falar nisso, voc quer jantar comigo hoje  noite?
      - Muito obrigada. Mas eu prefiro ficar em casa e arrumar as coisas com calma.
      - At amanh, ento.
      - Eu passo s trs em ponto na sua casa.


      Captulo V

      - Ah, ,eu estou curiosssima para conhecer seu amigo! - exclamou Grace no dia seguinte ao entrarem casa.
      - Calma, mame. Matt no  meu noivo, nem meu namorado. Ele  apenas meu chefe. Sem falar que Matt no  mais um rapazinho de vinte e poucos anos.
      - Os chefes, em geral, no convidam as funcionrias e suas famlias para passarem o fim de semana numa ilha - comentou Grace com ironia.
      Karen ouviu o comentrio em silncio. Matt evidentemente era considerado um excelente partido, segundo os padres convencionais, e o fato de ter conquistado
a simpatia de Lisa aumentava ainda mais sua chance de agradar a Grace.
      O fim de semana, pelo visto, seria bastante tenso. Bastaria Matt segurar na mo dela em pblico ou lhe dirigir um sorriso para Grace pensar que faltavam poucos
dias para o casamento.
      - O que voc gostaria de comer, mame? - perguntou Karen mudando de assunto e desviando a ateno de Grace para outra parte.
      - Para mim qualquer coisa est bom.
      - Eu fiz uma canja. O que voc acha de uma omelete com batatas fritas e arroz?
      - timo. Vou ajud-la a pr a mesa.
      - Enquanto isso eu vou preparando a comida. O arroz s esquentar.
      Lisa estava muito animada durante o almoo e sua excitao aumentava  medida em que se aproximava a hora do passeio. Ela fez diversas perguntas sobre a ilha
de Pakatoa, como era o iate de Matt, onde iam ficar hospedadas e uma poro de outras relacionadas com o fim de semana.
      s trs em ponto, ouviram um carro estacionar diante do porto. Lisa saiu correndo para ver quem era. Abriu a porta como um p de vento e gritou para dentro:
      - Matt chegou, mame!
      Matt levantou-a no alto enquanto Lisa dava risadas e gritinhos de alegria. Grace presenciou a cena da sala, com um sorriso. Karen no entanto apertou os lbios
de cime. Lisa e Matt pareciam dois velhos amigos quando entraram de mos dadas em casa.
      - Onde est o iate? - perguntou Lisa com animao.
      - Est no cais  nossa espera - disse Matt. - Vocs esto prontas?
      - Quase - disse Karen. - S falta passar um pente nos cabelos.
      As malas estavam no hall da entrada quando se prepararam para sair.
      Ben, o ajudante de Matt, que reunia as funes de motorista e de copeiro, e que estava encarregado de pilotar o iate, levou as bagagens para o porta-malas
gigante do Jaguar. Grace, Karen e Lisa sentaram-se no banco de trs. Matt foi na frente ao lado de Ben, que estava muito orgulhoso no uniforme cinza, com um bon
de aba preta brilhante.
      Lisa bateu palmas de alegria quando Matt apontou para o belo iate de dois motores que flutuava pacificamente ao lado do cais.
      O interior do barco era espaoso e confortvel. Tinha inclusive uma pequena saleta, com mesa e cadeiras dobrveis, onde estava a geladeira minscula, repleta
de bebidas e de refrigerantes.
      - Olhe quanto refrigerante, mame! - exclamou Lisa, deslumbrada com a profuso de garrafas.
      - Vocs me do licena um instante - disse Matt. - Eu vou ajudar Ben a arrumar as malas no poro e a fazer os preparativos necessrios para a partida. Fiquem
 vontade. Lisa, tome um refrigerante para matar a sede. O abridor est em cima da mesa.
      Lisa no se fez de rogada. Apanhou correndo o abridor e pegou uma garrafa na geladeira.
      - Seu amigo  uma simpatia! - murmurou Grace para a filha - Agora eu entendo por que Lisa o adora. Isso j  meio caminho andado...
      - Escute, mame, no vamos falar nisso agora, est bem?
      - Eu estava s comentando, filha. No precisa ficar zangada.
      - Est bem. Mas se voc fizer uma de suas declaraes habituais diante de Matt, eu juro que no vou me conter.
      - Eu no falei por mal. Saiu sem querer.
      - Vamos esquecer o Incidente. Eu j disse e torno a repetir que no h nada entre Matt e eu. Vamos aproveitar o fim de semana sem pensar nessas bobagens.
      Matt voltou logo depois de mos dadas com Lisa. Preparou alguns aperitivos que ajudaram a relaxar o clima tenso que estava presente no ar.
      Lisa levou a mo ao ouvido quando os dois motores poderosos foram acionados e o barco rumou diretamente para o alto-mar. Havia diversas embarcaes rio canal,
inclusive navios de grande porte. Acomodadas na saleta do iate, as trs observaram maravilhadas a paisagem pelas vigias abertas. Foi Lisa quem avistou primeiro a
pequena ilha de Motuihe e, em seguida, uma outra bem maior, a famosa ilha de Waiheke, com trinta quilmetros de comprimento, repleta de angras, de pequenas enseadas
e de baas magnficas, com praias de areia branca e uma vegetao luxuriante.
      Pakatoa, a ilha mais distante do arquiplago, fora adquirida por uma companhia de investimentos e transformada no maior centro turstico da Nova Zelndia.
      A tarde estava escurecendo quando se aproximaram do litoral e a primeira impresso que tiveram da costa foi realmente deslumbrante. O sol estava se pondo atrs
dos coqueiros e das rvores copadas, formando uma cortina de raios avermelhados.
      Barcos de pesca e canoas de remos estavam atracados na enseada, aguardando a hora de lanarem as redes ao mar. No momento em que Ben reduziu a velocidade de
cruzeiro e aproximou-se da costa, elas viram as primeiras casas de frente para o mar, todas com gramados grandes e bem tratados.
      - Chegamos! - exclamou Matt com alegria - Daqui at a praia vamos num barco de inflar.
      - Onde ns vamos ficar? - perguntou Lisa, quando desceram no ancoradouro de pedras.
      - Naquele hotel ali - disse Matt, apontando para uma construo que se erguia no meio das rvores.
      - Tem piscina? - exclamou Lisa, correndo de um lado para o outro.
      - Lisa, modos!
      - Eu vou informar na portaria que ns chegamos - disse Matt. - Enquanto isso, vocs podem dar uma volta para conhecer as dependncias do hotel. Tem quadras
de tnis, basquete...
      Lisa caminhou de mos dadas entre Grace e Karen, radiante de alegria, enquanto rumavam em direo ao hotel. A primeira coisa que avistaram foi a piscina de
azulejos azuis, com uma parte mais rasa para as crianas brincarem. Em volta da piscina havia mesas de madeira com guarda-sis coloridos, cadeiras de lona e espreguiadeiras
espalhadas sobre o gramado. Uma cerca viva de figos separava a piscina das quadras de tnis, de vlei e de basquete. Mais ao fundo havia um corredor de palmeiras
e alguns canteiros de papoulas. O hotel, pelo visto, abrangia uma rea imensa. Tinha banco, restaurante, drogaria, supermercado, butiques, bem como um bar ao ar
livre, onde os banhistas podiam entrar e sair sem passar pela portaria.
      - Eu nunca vi nada igual na minha vida! - exclamou Grace, deslumbrada.
      Karen balanou a cabea em silncio, fascinada igualmente com tudo o que avistava.
      - Vamos cair na piscina? - exclamou Lisa.
      - Agora? Voc est louca! Est na hora do jantar...
      - E amanh?
      - Amanh sim, se o dia estiver bom.
      O tempo estava firme e tudo indicava que na manh seguinte o sol estaria de fora.
      - Voc reparou que a piscina  protegida com uma cerca viva do vento? - perguntou Grace para Karen.
      - Eles pensaram em tudo - comentou Karen.
      - Matt tem muito bom gosto - acrescentou Grace.
      Karen ouviu o comentrio em silncio. Desconfiava que Matt devia ter alguma razo misteriosa para convidar as trs para passarem o fim de semana na ilha paradisaca,
mas no queria comentar sua suspeita com Grace. Isso no impedia, no entanto, que ficasse irritada com os elogios que Grace fazia a todo instante a Matt.
      - Olhe, Matt est vindo para c! - disse Lisa, ao v-lo aproximar-se pelo caminho de pedras que levava  portaria do hotel.
      - Estou com a chave dos quartos - disse Matt. - Vamos at l?
      Os quartos do hotel estavam distribudos em unidades isoladas,  maneira de pequenos chals rsticos.
      - Ns estamos nas unidades cinco e seis - explicou Matt ao subir meia dzia de degraus que levavam a uma varanda de madeira. - As unidades e os quartos so
idnticos uns aos outros. Voc tem preferncia por algum, especialmente?
      - Para mim, qualquer um est perfeito - disse Karen. - Qual voc prefere, me?
      - Podemos ficar no quarto de nmero cinco? - perguntou Lisa, segurando a mo de Karen. - Esse nmero  o dos meus anos.
      - Est resolvido - disse Matt com um sorriso. - Vocs ficam na unidade de nmero cinco e eu na de nmero seis.
      Ele apanhou as malas e colocou-as diante da porta. Em seguida, retirou um molho de chaves do bolso e abriu a porta.
      Karen entrou na frente e examinou rapidamente as peas com uma expresso silenciosa de aprovao. A arrumao dos mveis era impecvel. No havia muito lugar
sobrando, mas tambm no havia falta de nada.
      - Olhe a cozinha, mame! - exclamou Lisa, encantada com a quitinete minscula, que parecia um brinquedo, com fogo e geladeira embutida. - Tem refrigerante?
      - Sossegue, Lisa!
      - Se no tiver, a gente pede no bar - disse Matt, fazendo festa na cabea da menina. Lisa balanou as duas tranas com um sorriso aberto.
      - Ns podemos preparar um lanche aqui - disse Grace.
      - Eu j reservei nossa mesa no restaurante - anunciou Matt. - Aqui a ordem  andar  vontade. Ningum faz cerimnia nem bota roupa especial para jantar. 
como se a gente estivesse numa fazenda. Eu passo por aqui s sete para irmos todos juntos ao restaurante. Podemos tomar um aperitivo no bar.
      - Voc tem toda razo - comentou Grace. - Esse chal parece mais uma fazenda que um hotel. A decorao rstica combina muito bem com o ambiente. A gente se
sente em casa.
      - Foi isso que eu pensei quando sugeri a Karen esse passeio  ilha de Pakatoa.
      - Voc tem muito bom gosto - disse Grace, sem se conter.
      - Muito obrigado. At mais tarde, ento.
      - Tchau! - exclamou Lisa, mandando um beijo com a palma da mo.
      A menina ia correr atrs de Matt, para um ltimo abrao, quando Karen a segurou pelo pulso.
      - Chega! Agora sossegue um pouco.
      Grace fingiu no perceber a cena de cime.
      - Que cama voc prefere?
      - Posso dormir na sala? - perguntou Lisa ao ver o aparelho de televiso a cores em cima de uma mesinha de canto.
      - No, senhora. Voc vai dormir com sua av. Eu vou dormir na sala.
      - Voc vai trocar de roupa para o jantar? - perguntou Grace, procurando desviar a ateno de Karen para outro assunto.
      - No sei, ainda. Lisa, v lavar o rosto para o jantar. Enquanto isso vou arrumar nossas roupas no armrio.
      - Deixe que eu arrumo depois do jantar. Eu vou voltar cedo para casa.
      - Ah, bom. Entendi a indireta. Voc quer um pretexto para me deixar sozinha com Matt. Nada disso. Sou eu que vou trazer Lisa para c depois do jantar.
      - No seja implicante, minha filha! Foi voc que Matt convidou para passar o fim de semana aqui. Ns viemos apenas para lhe fazer companhia.
      Karen preferiu dar o assunto por encerrado. Como sempre, Grace argumentava com uma lgica irrefutvel. Sem dizer uma palavra, apanhou as duas malas no cho
e levou-as para o quarto de dormir.
      - Mame, eu vou trocar de roupa para o jantar? - perguntou Lisa da porta do banheiro.
      Karen observou-a um instante, indecisa.
      - No precisa. Seu vestido no est amassado. Eu vou levar uma malha, caso voc sinta frio mais tarde.
      - Que vestido voc vai pr? - perguntou Grace ao ver Karen examinando as roupas que trouxera na mala.
      - Acho que vou pr meu vestido verde de tafet.
      - Nesse caso, eu vou me trocar tambm. Que horas so agora?
      - Seis e meia.
      - Ah, d tempo de sobra!

      Matt passou s sete em ponto para apanh-las. Tinha posto um casaco esporte, com botes dourados e um leno de seda no pescoo.
      - Nossa, como voc est elegante! - exclamou Lisa com naturalidade.
      - Muito obrigado, boneca - disse Matt. levantando-a no, colo. - Voc est com fome?
      - Estourando.
      - Lisa, eu j disse que no fica bonito uma menina dizer isso.
      - Desculpe, mame. Saiu sem querer.
      Matt sorriu e colocou Lisa no cho. O salo de jantar era espaoso e sossegado. com janelas grandes que davam para o jardim. Algumas crianas estavam sentadas
diante do aparelho de televiso no canto da sala e no balco do bar alguns hspedes conversavam em voz baixa e bebiam os aperitivos antes do jantar.
      - Eu vou pedir um suco de laranja para voc, Lisa - disse Matt, fazendo sinal ao garom.
      Matt estava especialmente amvel e Grace sucumbiu imediatamente ao seu encanto. No era apenas por boa educao que ela exibia um sorriso nos lbios e apressava-se
em responder s perguntas que Matt lhe dirigia.
      Ela estava de fato encantada com o amigo da filha. Karen, no entanto, mantinha uma atitude de reserva, aguardando com impacincia a hora de voltar para o quarto
e descansar das peripcias do dia.
      Ao terminarem de jantar. Lisa disse que queria conhecer o salo de jogos e os trs a acompanharam at l. Um grupo de adolescentes danava ao som de uma vitrola
automtica. No outro canto da sala, havia mesas de pingue-pongue e de sinuca.
      - Vamos tomar um sorvete na varanda? - sugeriu Matt.
      - Oba! - exclamou Lisa com animao.
      Meia hora depois, no entanto, ela comeou a manifestar os primeiros sinais de sono. No momento em que encostou a cabea no assento da cadeira, Karen levantou-se
com a inteno de lev-la para a cama.
      - Pode deixar - disse Grace, adiantando-se  filha. - Eu tambm estou com sono.
      - Nesse caso, vamos todos - sugeriu Matt, segurando a menina no colo.
      Na porta do quarto, Matt passou Lisa para os braos de Karen e despediu-se das duas. Karen levou a menina para a cama, vestiu o pijama e ajeitou-a embaixo
do lenol. Feito isso, dobrou a roupa da filha e colocou-a em cima da cadeira para ela vesti-la na manh seguinte sem acordar Grace.
      - Voc trouxe a malha de Lisa? - perguntou Karen  me, voltando  sala.
      - Ah, que cabea! - exclamou Grace, batendo com os dedos na testa. - Esqueci a malha na cadeira.
      - No faz mal. Eu dou um pulo at l.
      Estava escuro no jardim e Karen apressou o passo em direo ao bloco principal, de onde vinha o burburinho de vozes e de gargalhadas.
      s cadeiras que tinham ocupado um momento antes continuavam vazias, mas Karen no encontrou a malha de l que Grace deixara na varanda. Provavelmente algum
a achara e a levara para a portaria ou para o bar. Karen atravessou a sala sob os olhares dos homens que conversavam em voz baixa e levantou o queixo para exibir
uma segurana que no tinha. Era desagradvel sentir-se cobiada por tantos olhares.
      Tinha a sensao de que os homens a despiam da cabea aos ps, comentavam o desenho das pernas, a forma do busto, a curva dos quadris.
      Havia outros homens apoiados no balco do bar quando ela se aproximou. O garom corria de um lado para o outro, preparando e servindo bebidas. Ela aguardou
com pacincia o momento em que estivesse livre para indagar a respeito da malha de Lisa.
      - Posso lhe oferecer um drinque?
      Ela voltou-se surpresa para o lado e avistou um rapaz alto, de cabelos louros; tostado de sol, com um copo de usque na mo.
      - Eu no o conheo.
      - No seja por isso. Eu me chamo David.
      Ela virou a cabea para o lado com um gesto brusco, como se quisesse dar por encerrada a conversa.
      - Vamos sentar numa mesa?  mais sossegado que aqui.
      - Muito obrigada, mas eu estou de sada. Eu vim aqui  procura de uma malha que esqueci na varanda.
      - Que pena! Eu gostaria tanto de conversar com voc.
      - Fica para outra vez - disse Karen, fazendo sinal para o garom.
      - Prometo me comportar bem.
      - Eu j disse que no! - exclamou Karen com impacincia. - No me obrigue a ser indelicada...
      - No precisa ficar zangada. Eu pensei que voc quisesse fazer um programa...
      - Mas ela no quer - disse uma voz familiar.
      Karen voltou-se e avistou Matt em p, atrs do seu banco. O rapaz sacudiu os ombros e afastou-se do balco com o copo de usque na mo.
      - Ah, voc me livrou de uma boa!
      - O que aconteceu?
      - Mame esqueceu a malha de Lisa em cima da cadeira. Eu procurei na varanda e no encontrei. Vim aqui perguntar ao garom se algum tinha achado.
      - Ainda bem que eu cheguei a tempo.
      - Como voc sabia que eu estava aqui?
      - Foi pura coincidncia. Eu passei pela sala quando a avistei diante do balco. Vamos tomar alguma coisa?
      - Voc no prefere jogar uma partida de sinuca?
      - No me diga que voc sabe jogar!
      - Mais ou menos.
      - Voc  a primeira mulher que eu conheo que possui esse talento!
      Como era de esperar, Matt ganhou a partida, se bem que Karen no fez feio.
      - At que a diferena no foi muito grande - disse ela, vendo os pontos marcados no quadro-negro.
      - Pois . Agora que eu fiz sua vontade, vamos tomar um drinque no bar?
      - Eu fao companhia.
      Meia hora depois, Karen disse que estava tarde e que queria voltar para casa. Matt levantou-se da cadeira e pagou a conta ao garom.
      - Voc j arrumou um novo emprego? - perguntou Matt no momento em que atravessaram o ptio escuro que separava o hotel das diversas unidades.
      - Ainda no. Vou passar alguns dias com mame, antes de decidir alguma coisa.
      - Voc vai estar de volta no fim da semana que vem?
      - No sei. Por qu?
      - Recebi dois convites para um jantar no sbado. Voc quer ir comigo?
      - Por que voc no convida uma de suas amigas? Seria muito mais divertido...
      - Eu prefiro a sua companhia. Diga que sim - insistiu Matt.
      Karen ficou na dvida quanto  inteno que havia por trs do convite, como acontecia toda vez que Matt insistia para obter alguma coisa dela. A desconfiana
era o maior obstculo para uma aceitao espontnea.
      - Eu no sei se vou poder ir - disse por fim.
      - Voc sempre recusa meus convites. Por que no confia em mim?
      - Eu aprendi a no confiar nos homens.
      - Nem todos os homens so iguais.
      - Como eu posso saber?
      - S existe uma maneira de voc tirar isso a limpo.  correr o risco...
      - Eu corri o risco uma vez e me arrependo at hoje.
      Karen parou diante da escada que levava ao seu quarto.
      - At amanh, Matt. Muito obrigada pela companhia.
      Matt inclinou a cabea e beijou-a de leve na boca.
      - At amanh. Durma bem.

      O sbado amanheceu um dia lindo. At mesmo as nuvens ralas que passavam lentamente sob o cu azul alegravam a paisagem deslumbrante.
      Uma brisa fresca balanava as folhas compridas das palmeiras e dos coqueiros que se estendiam a perder de vista pela orla martima.
      Eles tomaram caf no salo s oito da manh. Em seguida, por sugesto de Matt, deram um passeio a p pela praia. Lisa estava no seu elemento. Corria de um
lado para o outro e no se cansava de admirar tudo o que via, os barcos com velas coloridas, as conchas que achava na areia, as ondas midas que quebravam na praia
e que molhavam seus ps descalos...
      Karen dormira mal e tivera um pesadelo horrvel  noite. Estava com o rosto abatido e com olheiras fundas. No ntimo, desejava que o fim de semana terminasse
rpidamente e que voltassem para casa. A presena constante de Matt a perturbava de uma forma insuportvel.
      A piscina estava praticamente vazia quando chegaram l. Havia apenas alguns hspedes deitados em cima de toalhas estendidas na grama.
      - Vamos cair, mame?
      Lisa estava sentada na beira da piscina, com os ps dentro d'gua.
      - Venha comigo, Lisa - disse Matt, estendendo os braos para ela.
      Lisa no se fez de rogada. Atirou-se da borda da piscina nos braos dele. Segundos depois, estava dando gargalhadas dentro d'gua.
      - Eu sinto ccega! - exclamou. quando Matt a levantou por baixo dos braos.
      - Voc sabe nadar, garota?
      - Como um peixe. Olhe s!
      Lisa saiu batendo os braos e as pernas em direo  borda da piscina.
      Os cabelos compridos caam sobre os olhos e atrapalhavam a viso. Karen desceu os degraus da piscina e experimentou a gua com a ponta do p.
      Ela estava com um biquni minsculo e sentiu-se envergonhada diante do olhar apreciativo que Matt lhe dirigiu. Ele, por sua vez, estava com um calo bem justo
que acentuava o peito forte e musculoso. O tom moreno da pele contrastava com o dos outros hspedes do hotel. Matt provavelmente freqentava as praias e piscinas
durante o inverno nos pases de clima quente.
      Karen afastou a vista dele e dirigiu sua ateno para Lisa. Minutos depois, Matt saiu de dentro da gua e sentou-se na beira da piscina.

      Depois do almoo, Grace ofereceu-se para levar Lisa  discoteca infantil que havia no hotel, onde as crianas pequenas podiam pular e danar das quatro s
seis. Era a primeira vez que Lisa ia  discoteca e ela no cabia em si de alegria.
      Karen estava na dvida se dava ou no permisso. No fundo, ela no queria ficar sozinha com Matt.
      - Ah, deixa, mame! - insistiu Lisa com os olhos arregalados. - S um pouquinho.
      - Ela vai gostar de l - interveio Matt.
      - No custa nada experimentar - acrescentou Grace. - Se a msica estiver muito alta, eu venho embora.
      Matt deu uma tragada e soprou a fumaa para o alto.
      -  bom que as crianas participem das atividades sociais dos adultos.
      Karen pensou protestar, dizer que Lisa era sua filha e que ningum tinha que se meter na vida dela, mas acabou cedendo. Era impossvel enfrentar Matt e Grace
ao mesmo tempo. Os dois, pelo visto, faziam parte de uma conspirao contra ela.
      - Voc gosta de jogar cartas, Matt? - perguntou Grace, desviando a conversa para um terreno mais tranqilo.
      - Gosto muito.
      - Podamos jogar uma partida de buraco mais tarde.
      - Eu vou providenciar um baralho - disse Matt, despedindo-se das duas.
      Karen aproveitou para dar um passeio com Lisa pelos arredores do hotel.
      - Vamos ao parque infantil?
      - J sei. Voc quer descer no escorregador.
      Escorregador e balano eram os dois brinquedos prediletos de Lisa.
      - Como voc adivinhou?
      Sem esperar pela resposta, Lisa saiu correndo e subiu os degraus que levavam ao alto do escorregador.
      - Olhe, mame! Eu vou escorregar sem segurar no corrimo.
      - Estou vendo.
      Karen porm estava com o pensamento em outra parte. No devia ter aceito o convite para passar o fim de semana na companhia de Matt. Estava morrendo de dio
e de frustrao. Por mais que procurasse mostrar-se  vontade diante dele, o clima de tenso e de antagonismo que havia entre os dois era insuportvel. Sobretudo
depois que Grace tomara o partido de Matt e inventava mil pretextos para deixar os dois sozinhos.
      - Matt, olhe s! - gritou Lisa do escorregador.
      Ah, no! pensou Karen sem se voltar. Ela podia sentir a presena dele nas suas costas. Gostaria de agredi-lo fisicamente, agredir o destino que o aproximara
dela, o mundo inteiro que no fazia nada para separ-los! Daria tudo para partir da ilha naquele mesmo dia... Mas isso seria infantil, egosta, e s serviria para
agravar a situao.
      - Por que voc ficou com raiva de sua me?
      - Porque ela est conspirando contra mim! - disse Karen com irritao. - E voc faz parte dessa conspirao.
      - H mal em querer sua felicidade?
      - Eu sou feliz sem a ajuda de vocs dois!
      - Duvido...
      O tom irnico da afirmao foi a gota d'gua.
      - Eu estava muito feliz com Lisa at o momento em que voc se meteu na minha vida! Por que voc no me deixa em paz?  s isso que eu peo.
      - Fale baixo, seno Lisa vai pensar que ns estamos brigando.
      - Que pense!
      - Vamos deixar essa conversa para uma ocasio mais oportuna. Vou dar um pulo no iate e ver se est tudo em ordem. Estarei de volta para o jantar.
      Karen balanou a cabea lentamente. Matt fez meia-volta e dirigiu-se para o cais. Ela o acompanhou com a vista e viu o momento em que Matt entrou na canoa
que estava amarrada na praia. Ele empurrou a canoa com facilidade para dentro d'gua e comeou a remar vigorosamente em direo ao iate ancorado a umas centenas
de metros da praia.
      - Mame, vamos cair na piscina?
      Lisa tinha descido do escorregador e estava vindo na sua direo, balanando os braos ao lado das pernas, como um boneco.
      - Vamos. Voc cansou de brincar no escorregador?
      - Cansei.
      - Estava gostoso?
      - Uma delcia. Estou com a "poupana" ardendo.
      Karen deu uma risada bem-humorada.
      - Onde voc aprendeu a dizer isso, sua sapeca?
      - Na escola.

      Eles jantaram no terrao envidraado com vista para os canteiros de papoulas. Lisa, como sempre, portou-se maravilhosamente bem na companhia dos adultos, sem
que Karen fosse obrigada a chamar sua ateno nenhuma vez.
      Depois do jantar, deram uma volta a p pela praia e viram os pescadores costurando as redes de pesca que estavam estendidas ao comprido. A noite estava ligeiramente
fresca e Lisa correu descala pela areia mida, esfregando os braos. s vezes ela parava de repente e dava um gritinho de susto. Era um siri que saa correndo e
afundava na areia mida.
      Mais tarde, os quatro foram ao salo de festa do hotel. Alguns pares danavam no meio da sala, sob os olhares dos hspedes sentados nas mesas em volta. O equipamento
estereofnico estava sendo instalado quando entraram no salo. Havia grupinhos de moas e de rapazes conversando pelos cantos,  espera do incio do baile.
      - Matt, querido, que surpresa agradvel!
      Karen voltou rapidamente a cabea, curiosa para identificar a voz alta e melodiosa que havia cumprimentado Matt com tanta intimidade. Avistou uma moa ruiva,
muito magra, vestida na ultima moda, que avanava na direo deles com o rosto radiante.
      Ela tinha os olhos bem negros e a pele tostada do sol, de um moreno queimado, mais escuro que o de todos os hspedes do hotel. O vestido leve de vero era
bem justo na cintura e rodado nas pernas. A moa morena tinha o porte, a estampa e o andar gracioso de uma manequim. A maquilagem era impecvel e os cabelos ruivos,
puxados para trs, estavam presos com um grampo no alto da cabea.
      Um perfume extico inundou o ar no momento em que ela estendeu a mo para Matt com um gesto gracioso. Em seguida, ficou na ponta dos ps e beijou-o no rosto
com a maior naturalidade deste mundo. Karen sentiu uma pontada no peito. Parecia que tinha presenciado uma cena ntima entre os dois.
      - Berenice, eu queria apresent-la a umas amigas.
      Berenice deu um sorriso que se estendeu s trs.
      - Quando voc voltou da Europa, querido? Telefonei um monto de vezes para voc e sua secretria disse que voc estava viajando...
      - Cheguei h uns quinze dias - explicou Matt. - E voc, quais so as novidades?
      - Tudo bem! A gente podia se encontrar uma noite dessas para bater um papo. Telefone para mim. Estou na unidade quatro. - Berenice voltou-se para Grace e Karen.
- Muito prazer em conhec-las. Adeus, querido.
      Com a mesma graa com que tinha se aproximado, Berenice dirigiu-se ao bar no fundo do salo, abrindo caminho por entre os grupos que conversavam na sala.
      - Que moa elegante! - comentou Grace, fascinada com a maneira graciosa de Berenice. - Parece um modelo de fotografia...
      - Ela  realmente manequim de moda.
      - Se voc preferir conversar com ela, no faa cerimnia - disse Karen com um sorriso sem graa, procurando manter a voz impessoal, embora estivesse fervendo
por dentro. - Vou aproveitar e levar Lisa para a cama.
      - J, mame?  cedo ainda...
      - Est na hora de voc dormir, filha.
      Matt interveio na conversa.
      - E o buraco que ns amos jogar depois do jantar? Vocs no esto mais com vontade?
      - No se prenda por nossa causa - insistiu Karen com a voz tensa. - Mame e eu tivemos um dia muito cheio e vamos dormir cedo.
      - Vamos jogar s uma partida - disse Matt, trocando um olhar de cumplicidade com Grace. - Voc est com vontade, Grace?
      - Eu fao o que vocs resolverem.
      - timo. Vamos procurar uma sala mais sossegada.
      s nove e meia, Lisa estava caindo de sono e atirou-se no pescoo de Matt quando ele se ofereceu para lev-la no colo at o quarto. Depois que Matt ps a menina
na cama e voltou para a sala, Grace deu um bocejo educado e despediu-se dos dois.
      - Por que voc no faz um cafezinho na quitinete? - perguntou ela da porta. - Tem tudo a: p, coador, acar...
      - Boa idia - disse Matt, com animao, colocando o baralho em cima da mesa. - Vamos fazer um caf.
      Karen apanhou a cafeteira eltrica no armrio, encheu-a com gua e colocou o p no coador de papel. Enquanto isso, Matt apanhou as xcaras e os pires no armrio.
Quando a gua ferveu e passou no coador, Karen retirou o bule de vidro e levou-o para a mesa.
      - Que rapidez! - exclamou Matt.
      - Viu s?
      - Voc est com pressa que eu v embora?
      - Berenice a essa hora deve estar no quarto. Por que voc no liga para ela?
      - E digo o qu?
      - U, voc no ouviu o que ela disse, "Venha bater um papo comigo, querido"? - disse Karen, imitando a voz de Berenice. - Por que voc no vai at l? Ela
est doidinha para conversar com voc...
      - Eu prefiro conversar com voc.
      - Eu estou morrendo de sono - disse Karen com um bocejo.
      No momento em que ela levou a mo  boca, Matt segurou-a pela cintura e puxou-a com violncia na sua direo. Quando ela voltou a si, estava com o corpo colado
ao dele. Matt arrastou-a peta cintura em direo  porta.
      - Ei, onde voc vai? - murmurou Karen, assustada.
      - Vamos conversar no meu quarto. L, pelo menos, no acordamos ningum.
      - De jeito nenhum! - exclamou Karen, fazendo fora para se soltar das mos dele.
      Eles estavam no jardim escuro e Matt fechou a porta atrs de si com cuidado para no acordar Lisa.
      - No seja criana. L  mais sossegado que aqui.
      - Eu no vou ficar sozinha com voc por nada deste mundo - disse Karen com a voz alterada.
      Ela estava com os olhos arregalados de medo quando Matt segurou-a pelo pulso e tentou arrast-la em direo ao seu apartamento.
      - O que voc tem? Eu no vou possu-la  fora! Dou minha palavra.
      - Eu no quero!
      Matt encarou-a no fundo dos olhos e viu as lgrimas saltarem e rolarem pela face.
      - No chore. Se voc no quer, no precisa ir.
      Ela secou as lgrimas que rolavam pelo rosto plido e abriu a porta do apartamento.
      - Durma bem, Karen. Desculpe.
      Matt fez meia-volta e afastou-se a passos rpidos em direo  sua unidade.

      Karen acordou com o rudo de pratos e xcaras sendo lavados na pia. A luz do sol entrava pelas frestas da persiana e Grace estava andando de um lado para o
outro da sala, arrumando a mesa do caf.
      - Que horas so? - perguntou Karen com um bocejo.
      - Ah, voc acordou? Dormiu bem?
      - No. Tive um pesadelo horrvel esta noite...
      - Eu pensei que voc j estivesse curada desses pesadelos - comentou Grace, colocando os talheres na mesa.
      - Que nada. Faz seis anos que eles me perseguem.
      - Voc foi dormir muito tarde ontem?
      - No, logo depois de voc.
      - Matt contou os planos para hoje?
      - No, no falou nada.
      - Ele programou um churrasco na ilha de Kawau.
      - Ah, ?
      - Matt  uma simpatia! - exclamou Grace com vivacidade. - Eu no sei por que voc o trata to mal...
      - Voc prometeu que no ia falar mais nesse assunto - disse Karen levantando-se do sof-cama e dirigindo-se ao banheiro. - Lisa est acordada?
      - No. Ela continua dormindo.
      - Estranho. Em geral, ela  a primeira a acordar.
      - Ela tem brincado e pulado demais e vai exausta para a cama. E est adorando este fim de semana.
      Karen balanou a cabea e entrou no banheiro.


      Captulo VI

      Ao encontrar-se com Matt, horas mais tarde, Karen mostrou-se especialmente reservada. Durante o resto do dia permaneceu silenciosa, pensativa, sem tomar parte
na conversa, proferindo quando muito alguns monosslabos.
      Matt no fez nenhum comentrio a respeito do silncio dela nem das olheiras fundas que davam aos olhos azuis uma aparncia de cansao.
      Depois do churrasco ao ar livre na ilha de Kawau, Ben contornou o canal e rumou para terra firme, no fim da tarde. Desembarcaram na baa que tinha a forma
de meia-lua, passaram as malas e bagagens para o carro e rumaram diretamente para casa.
      O trajeto na volta levou menos tempo que na ida. No instante em que o Jaguar parou diante do porto, Karen desceu em silncio e aguardou na calada que Ben
retirasse as bagagens do porta-malas.
      - Vamos entrar para tomar um cafezinho, Matt - disse Grace diante do silncio de Karen.
      - Muito obrigado, mas fica para outra vez. Vou acompanhar Ben at o cais. Precisamos fazer uma boa vistoria no iate.
      - Foi um fim de semana maravilhoso! - comentou Grace com vivacidade. - Voc foi muito gentil em nos convidar para conhecer a ilha de Pakatoa. No sei como
lhe agradecer. Lisa adorou o passeio.
      Karen murmurou algumas palavras de agradecimento e deu a mo  filha para entrar em casa.
      - Vamos, Lisa. Matt vai voltar ao cais para ver a lancha.
      - Quando voc vem de novo? - perguntou Lisa impulsivamente.
      - Sbado que vem, Lisa. Voc e sua me esto convidadas para jantar comigo.
      Karen ouviu o convite sem dizer uma palavra.
      - Estou esperando por voc - disse Lisa. - No falte, hein?
      Matt deu uma risada bem-humorada.
      - Est combinado. Eu no vou me esquecer.
      Depois de acenar mais uma vez para as trs que estavam paradas na calada, Matt sentou-se ao volante do Jaguar e partiu em direo ao cais, a fim de providenciar
os cuidados necessrios com o iate.
      Mal entraram em casa, Grace manifestou sua desaprovao pela atitude silenciosa de Karen durante as ltimas horas.
      - Depois de tudo o que Matt fez para nos proporcionar um fim de semana agradvel, voc faz uma cara dessas, filha?
      - O que tem minha cara?
      - Ah, voc no abriu a boca o tempo todo! Ficou calada como uma mmia no seu canto. Isso  coisa que se faa?
      - Por favor, mame, no vamos discutir esse assunto agora. Estou morta de cansao e com a cabea estourando. Vou comer alguma coisa e ir diretamente para a
cama.

      No meio da noite desabou uma tempestade, acompanhada de raios e trovoadas. Karen acordou sobressaltada e levou algum tempo para pegar novamente no sono. Os
dois dias passados na ilha de Pakatoa no lhe saam da lembrana. Rememorava todos os detalhes, as palavras trocadas com Mau, os pequenos episdios no salo de festa,
a discusso que tivera com ele na ltima noite,  porta do seu apartamento, o papel de idiota que fizera ao recusar-se a ter uma conversa a ss com ele.
      Acordou indisposta na manh seguinte e a viagem at a casa de Grace, em Whangarei, ocorreu num clima de tenso. O trajeto que levava normalmente duas horas
foi percorrido em trs.
      Alm disso, a visita  cidade onde nascera e passara a maior parte de sua juventude produziu nela um efeito estranho, como se fosse uma espcie de mergulho
nas profundezas do inconsciente. Karen lembrou-se de Brad, das primeiras conversas que travara com ele, do desastre de automvel.
      Por outro lado, havia recordaes agradveis relacionadas com a poca em que o pai estava vivo. Ela tinha a impresso de que estava folheando as pginas de
um livro de memrias quando reviu as ruas, as pracinhas, os jardins floridos da cidade.
      Da janela do seu quarto podia avistar o parque onde conhecera Brad, o banco de madeira onde estava sentada quando ele se aproximou e perguntou as horas.
      Mais tarde, no meio da conversa que se seguiu, Karen ofereceu-lhe o sanduche de queijo que estava comendo e, ao se despedirem uma hora mais tarde, combinaram
encontrar-se naquela mesma noite para irem ao cinema.
      Estava tudo ali, um lembrete bem vivo da paixo repentina que sentira por Brad. Lembrou-se dos restaurantes onde tinham ido na poca em que faziam planos para
o futuro, das lojas onde comprara o enxoval.
      Em toda parte encontrava fisionomias conhecidas, ouvia as mesmas perguntas de sempre: "Que fim voc levou?" ou "Por que voc deixou a gente?"
      Karen estava com os olhos midos quando ajudou Grace a retirar as malas do carro. No primeiro instante, arrependeu-se de ter feito aquela viagem na companhia
da me e de Lisa. De certa forma, tinha a sensao de que estava ressuscitando um passado que desejava por fora esquecer. Por outro lado, ficar em casa sozinha
era loucura'. No estava em condies de enfrentar Matt sem a proteo de Lisa. O mais importante no momento era fugir da presena dele ou, pelo menos, manter uma
distncia razovel.
      - Vamos entrar, minha gente! - disse Grace com animao. - A lareira est  nossa espera. Quem diria que, depois daqueles dias passados na praia, amos pegar
esse frio mido daqui?
      - Voc est arrependida de ter voltado?
      - Nem me fale! Por mim, eu me mudaria hoje mesmo para l. Pakatoa  o paraso, minha querida.
      Meia hora depois, sentada diante da lareira e com uma xcara de caf na mo, Karen parecia mais conformada com a situao.
      - Beba seu caf com calma, querida - disse Grace, levantando-se do sof. - Eu vou dar uns telefonemas...
      - J sei! Voc vai comunicar a suas amigas que eu voltei. Por favor, mame, no faa nenhum programa para mim. Eu vim aqui para descansar...
      Seus protestos foram inteis, no entanto. Grace voltou pouco depois com a fisionomia radiante e anunciou que tinham sido convidadas para jantar em casa, de
fulano e para uma reunio em casa de sicrano. Assim, todos os dias da semana seriam preenchidos por algum programa noturno.
      Grace limitou-se a sorrir diante das splicas e protestos de Karen.

      Como estava previsto, Karen comeou a levar uma vida social intensa no dia seguinte. Felizmente ela conhecia a maior parte das pessoas em casa de quem fora
convidada para jantar. Mas houve um pequeno incidente desagradvel durante aquela estadia em sua cidade natal. O bom partido que lhe foi apresentado numa festa comportou-se
corretamente at o terceiro copo de usque. Da para a frente comeou a tomar certas liberdades e chegou mesmo a fazer algumas propostas indecorosas a Karen. Felizmente,
ningum percebeu nada e o fora que ela deu no rapaz foi suficiente para mant-lo a uma distncia respeitvel. De qualquer maneira, o episdio contribuiu para a opinio
negativa que ela tinha a respeito dos homens, em geral.
      O tempo continuou mido e chuvoso durante alguns dias. No sbado  tarde estava garoando fininho quando Karen fez a viagem de volta para casa. No fundo, ela
estava contente por retomar  sua vida de antes.
      Um temporal repentino desabou no meio do caminho e atrasou em mais de uma hora sua chegada. Embora a estrada tivesse pista dupla e estivesse em excelentes
condies de conservao, havia um trecho na serra que exigia a concentrao constante dos motoristas. Assim, no momento em que Karen entrou na periferia da cidade,
estava exausta e nervosa com as horas passadas ao volante do carro. e no tinha a menor disposio para fazer um programa noturno. Seu nico desejo era tomar um
banho quente, comer alguma coisa leve e enfiar-se embaixo do lenol. A idia de ir a uma festa e tomar parte nas conversas frvolas e superficiais que so uma parte
integrante dessas reunies no lhe apetecia a mnima.
      Pensou em telefonar para Matt e dizer que no ia mais, como tinha combinado. No ltimo instante, porm, mudou de idia.
      Matt ficara de passar em sua casa s sete da noite e ela tinha apenas uma hora para tomar banho e se vestir.
      Saiu do banheiro com a toalha enrolada no corpo e sentou-se diante da penteadeira, a fim de secar os cabelos e fazer a maquilagem. Alm de acentuar a cor dos
olhos com sombra, passou um pouquinho de p compacto na face para desfazer a aparncia de cansao deixada pela viagem. Feito isso, abriu.a porta do guarda-roupa
e ficou na dvida se punha o vestido areia, de feitio bem simples, ou o azul, que tinha um decote fundo.
      Aps alguns instantes de indeciso, retirou o vestido azul do cabide e o enfiou pela cabea, tomando cuidado para no desmanchar o penteado que levara meia
hora para fazer. Tinha acabado de borrifar perfume no pescoo e atrs das orelhas quando a campanhia da porta tocou.
      - Voc est pronta? - perguntou Matt.
      Matt estava muito elegante com o temo cinza-escuro de listinhas e a gravata preta de seda natural. Tinha o ar dinmico e enrgico de um industrial.
      - Como sempre, voc  a pontualidade em pessoa - comentou Karen, trancando a porta da frente e dirigindo-se para o carro estacionado na calada.
      Ela procurou comportar-se com naturalidade, embora fosse difcil, porque a simples presena dele tinha o efeito de deix-la completamente perturbada. Sentia-se
inexperiente e insegura como uma adolescente. Alm disso, por alguma razo desconhecida, Matt despertava nela desejos profundos que estavam adormecidos no inconsciente.
      - Ento, divertiu-se muito em casa de sua me?
      Karen observou-o com o canto dos olhos, sem saber se havia alguma segunda inteno por trs da pergunta aparentemente inocente.
      - Choveu a maior parte do tempo. Lisa e eu demos alguns passeios de carro. Estava frio, alm disso. Acendemos a lareira da sala todas as tardes.
      - E o que voc fez  noite?
      A pergunta dessa vez atingiu seu objetivo. Ela teve a ntida impresso de que Matt desejava test-la. Imediatamente veio  tona o antagonismo que estava latente
na conversa e que aguardava a primeira oportunidade para se manifestar.
      - Sa todas as noites. E cada vez com um rapaz diferente. Jantei fora uma meia dzia de vezes, dancei at de madrugada, recebi uma poro de cantadas, cada
uma mais sedutora que a outra. O que mais? Ah, sim! Fui criticada pelos rapazes por ser fria como um peixe. Est contente agora?
      Matt deu uma risada. Karen voltou-se furiosa para ele.
      - Olhe, acho melhor voc me levar de volta para casa. Eu realmente no estou com disposio para sair, muito menos com algum que zomba de mim.
      Matt ouviu o desabafo com o rosto impassvel.
      - J estamos chegando. - Ele estacionou o carro na calada, desligou o motor e voltou-se para ela. - Fugir nunca foi soluo para nada. V por mim.
      - O que voc quer insinuar com isso?
      - Voc est fugindo de mim o tempo todo - disse ele com a voz serena. - Por que no ficou aqui e enfrentou o inevitvel?
      - Que inevitvel? Ceder  sua insistncia? Dar-me por vencida?  isso o inevitvel a que voc se refere? Por que voc no me aceita com eu sou?
      - Querida, voc est se comportando como uma criana rebelde que faz malcriao para os pais. Voc recusa todas as mos que lhe so estendidas, sem saber primeiro
se so ou no mal intencionadas.
      - O que voc queria? Que eu me atirasse nos braos de todos os homens que me fazem propostas?
      - Tambm no precisa exagerar. Eu queria apenas que considerasse as propostas que lhe so feitas com uma certa simpatia.
      - Eu fiz isso uma vez e entrei pelo cano!
      - Tente uma segunda vez. Quem sabe voc vai acertar?
      Uma hora e algumas bebidas mais tarde, Karen parecia mais animada com a festa. Quando Matt a convidou para danar, ela aceitou de bom grado.
      - Assim  que eu gosto - murmurou ele no seu ouvido. - Voc fica mais bonita com essa expresso meiga. A agressividade no combina nada com voc.
      - O que voc quer? Eu sou sensvel... E sofro com seu ar de pouco caso.
      - Eu juro que no fiz de propsito.
      - Voc podia ser mais tolerante...
      Embalada pela melodia lenta da msica, Karen deitou a cabea no ombro de Matt e deixou-se arrastar pelo salo nos braos dele, esquecida das brigas passadas,
indiferente ao antagonismo que havia entre os dois, uma massa amorfa feita unicamente de sensaes agradveis.
      Quando voltaram  mesa, as outras quatro cadeiras estavam ocupadas.
      Karen franziu a testa ao avistar Berenice entre os presentes.
      - Faz tempo que vocs esto aqui? - perguntou Berenice quando os dois se aproximaram.
      - Uma meia hora.
      - Eu me atrasei no telefone e perdi completamente a hora. Desculpe, Matt.
      - No tem nada - disse Matt, puxando a cadeira para Karen sentar-se.
      Berenice estava mais bela do que na primeira vez em que Karen a tinha visto. O vestido de crepe da ndia acentuava a leveza dos seus gestos e lhe dava um ar
extremamente feminino. Matt apresentou os rapazes que acompanhavam Berenice a Karen e, depois que todos se sentaram, pediu ao garom uma garrafa de vinho branco
e um pratinho de queijo.
      Karen comeou a sentir os efeitos do lcool no momento em que terminou o terceiro copo de vinho. Consciente dos olhares e dos sorrisos que Berenice dirigia
a Matt, voltou-se para Andrew e procurou esquecer a presena dos dois.
      Entretanto, por mais que procurasse se convencer de que no havia motivo para sentir-se ofendida com a ateno que Matt dedicava a Berenice, o cime comeou
a roer-lhe o corao. Berenice tinha tudo o que lhe faltava: segurana, tato social, experincia, desembarao.
      - Vamos danar?
      Matt voltou-se para Karen, como se estivesse na dvida se devia ou no aceitar o convite de Berenice.
      - No se prenda por minha causa.
      - Voc se importa que a gente dance uma vez, Karen? - perguntou Berenice ao ver a indeciso de Matt.
      - De jeito nenhum - disse Karen com um sorriso forado. - Matt  livre para fazer o que bem entende.
      - Decida-se, homem! - insistiu Berenice.
      - Mais tarde, Berenice - disse Matt por fim. - Eu vou escolher a sobremesa: Voc vem comigo, Karen?
      - Voc me d licena, Andrew?
      Karen aproveitou a oportunidade para afastar-se do ambiente pesado que estava se formando na mesa. Quando chegaram na outra sala, onde estava arrumado o buffet.
Matt segurou-a pelo brao e conduziu-a. em direo  mesa das sobremesas.
      - Eu me esqueci completamente de que Berenice vinha - disse ele, apanhando dois pratos numa pilha.
      - Voc no prefere que eu v embora? Para mim no tem problema... Eu posso pegar um txi.
      - No seja boba! - disse Matt com impacincia. - Voc veio comigo e vai voltar comigo. O que voc quer?
      Karen percorreu com a vista s travessas dispostas em cima da mesa. Havia pudins de chocolate, de laranja, de leite, bolos de diversas espcies, salada de
frutas, compotas em calda, tortas de ma, de ameixa... Nada porm lhe despertou o apetite. Ela estava com Berenice atravessada na garganta e no seria uma sobremesa,
por mais gostosa que fosse, que a faria sentir-se melhor.
      - Eu no vou querer nada.
      Matt colocou os pratinhos de sobremesa em cima da toalha.
      - Vamos danar?
      Karen balanou a cabea com ar de desnimo.
      -  verdade. Eu estou realmente cansada da viagem e gostaria de voltar mais cedo para casa. Quase telefonei para voc, dizendo que no estava com vontade de
vir a esta festa. - Ela levantou a mo e alisou um cacho de cabelo que caa sobre a testa. - No se prenda por minha causa. Eu posso perfeitamente voltar sozinha.
      - Bem, se voc est cansada e quer ir embora, eu vou lev-la para casa.
      Matt segurou-a pelo brao e conduziu-a em direo  escada que terminava no hall de entrada. Karen no disse uma palavra durante o trajeto de volta. No instante
em que o carro parou diante do porto, ela estendeu automaticamente a mo para abrir a maaneta.
      - No precisa descer. Eu vou sozinha.
      Matt ignorou seu comentrio. Desceu do carro e acompanhou-a at a porta da frente.
      Ela estava com a mo trmula e levou alguns segundos para acertar a chave na fechadura. Voltou-se finalmente e despediu-se dele com um murmrio.
      - Voc no vai me convidar para entrar?
      - J  tarde.
      - Eu gostaria de conversar com voc. Ns mal trocamos uma palavra na festa.
      - Voc no quer deixar para outro dia?
      - Por qu? Voc tem medo de ficar sozinha comigo?
      - Eu? De jeito nenhum...
      Matt entrou e fechou a porta atrs de si. Karen dirigiu-se  sala de estar e acendeu a luz atrs da porta.
      - Afinal, eu no fiquei sabendo ao certo como foram as frias que voc passou na casa de sua me - disse Matt, instalando-se no sof. - Voc se divertiu muito?
      - No foram frias - disse Karen com o rosto srio. - Eu fui apresentada  sociedade local, como se estivesse  procura de um bom partido. Senti-me exposta
como uma mercadoria na vitrine,  espera de um comprador...
      Matt deu uma risada.
      - Voc acha graa?
      - Sua me no fez por mal.
      - Ela pode ter feito com a melhor das intenes, mas o efeito  o mesmo.
      - Voc est exagerando.
      - Juro que no. Os homens me dirigiram olhares de cobia como se eu fosse um peso de carne, ouvi as propostas mais indecentes do mundo com um sorriso nos lbios...
Ah, foi horrvel! Pode ser engraado para voc, mas para mim no teve graa nenhuma.
      - Coitadinha - disse Matt segurando-a pelos ombros e estreitando-a nos braos.
      - Eu no sou coitadinha! - exclamou Karen com raiva, afastando-o para longe. - Sou uma mulher de vinte e cinco anos que perdeu o marido.  por isso que os
homens abusam de mim!
      - Eu j ouvi essa desculpa antes. Minha experincia, porm, indica que todos s pensam numa coisa...
      - Levar a mulher para a cama.
      - Exatamente.
      - Mais cedo ou mais tarde voc vai mudar de opinio.
      - Voc acha?
      - Tenho certeza.
      - De que adianta eu mudar de opinio a seu respeito? Meu corao j foi pisado e machucado uma vez. Eu jurei a mim mesma que nenhum homem me apanharia desprevenida
de novo.
      Matt ouviu a explicao em silncio:
      - Voc est cansada, Karen - disse Matt por fim. - Eu telefono amanh para saber notcias suas. Durma bem.
      O tom protetor da sugesto exasperou-a ainda mais.
      - Eu no sou criana para voc me mandar dormir! - exclamou, dando vazo  raiva que fervia dentro do seu peito. - Por que voc no me deixa em paz, em vez
de me dar conselhos? Eu estava feliz no meu canto at o instante em que voc apareceu para me perturbar a vida. No quero mais v-lo na minha frente... nunca mais!
      As lgrimas saltaram dos olhos e rolaram pela face, arruinando a maquilagem que ela tivera tanto cuidado ao fazer. Ela afundou o rosto entre as mos, a fim
de furtar-se ao olhar de Matt.
      Parecia ter passado uma eternidade no instante em que Karen ouviu a porta da frente abrir e fechar com todo cuidado. Segundos depois, o ronco silencioso do
Jaguar confirmou a partida dele.
      Karen retirou lentamente as mos do rosto e olhou em volta. O vazio que se fez repentinamente na sala era uma prova evidente da importncia que Matt passara
a ter na sua vida nas ltimas semanas. Ela no queria pensar na falta que sentiria dele nos prximos dias. Suas emoes estavam confusas demais para raciocinar com
frieza sobre a situao. O melhor que tinha a fazer era dormir, no pensar em mais nada.
      Dirigiu-se  cozinha, meio tonta e foi diretamente ao armrio onde guardava os comprimidos para dormir. Engoliu dois de uma vez e subiu a escada com as pernas
trmulas, apoiadas ao corrimo, com uma angstia horrvel no peito.

      - Mame, Matt no falou que vinha hoje?
      Karen fitou a filha com o rosto tranqilo e procurou manter a voz serena.
      - Matt  um homem muito ocupado, corao. Ele tem dezenas de outras pessoas para visitar.
      - Mas ele falou que vinha hoje - repetiu Lisa, com a testa franzida. - Ser que ele vem  tarde?
      No havia outro jeito seno contornar o assunto.
      - Escute, voc no quer me ajudar a varrer a casa, arejar os quartos, passar aspirador no tapete, regar as plantas...
      - Agora?
      - Depois do almoo.
      - Matt disse que vinha almoar aqui, lembra?
      - No lembro mais.
      - Ser que ele est zangado com a gente, mame?
      Karen virou a cabea para no encarar a menina nos olhos. A situao estava se tomando cada vez mais difcil.
      - Acho que no. Por que voc diz isso?
      - Porque ele no costuma passar tanto tempo assim sem aparecer.
      - Ele deve estar ocupado na fbrica.
      Lisa ouviu a explicao em silncio.
      - Vocs brigaram, mame? - perguntou por fim, fitando-a nos olhos.
      Karen ficou muda no primeiro instante, como se tivesse um n na garganta. Era impossvel mentir para uma criana sensvel como Lisa.
      - Voc ficaria triste se Matt no viesse mais aqui?
      Os lbios da menina comearam a tremer e os olhos encheram-se de lgrimas.
      - Eu gosto dele, mame! Todas as outras meninas tm papais, s eu no tenho.
      O corao de Karen virou pelo avesso.
      - Como no, amor? Eu j disse a voc uma poro de vezes que seu pai morreu antes de voc nascer. Num desastre de automvel.
      - Eu no posso ter outro papai?
      - Pode, filhinha. Eu preciso me casar de novo.
      - Quer dizer que um dia eu vou ter outro papai?
      - Vai! - disse Karen com uma risada, procurando relaxar a tenso que se formara entre as duas. - Eu no sabia que voc no gostava mais da minha companhia.
Voc est cansada de mim, sua ingrata?
      - No  isso, mame!
      Lisa ficou pensativa um instante, como se o assunto anterior no tivesse sido resolvido a seu contento.
      - O que , ento?
      - A gente no pode fazer uma visitinha a ele hoje  tarde?
      - No, amor, a gente no pode. Mas se voc est com vontade de sair, podemos ir ao zoolgico. No caminho de volta, vamos tomar um sorvete no Max. Que tal?
      - Legal.
      Distrada momentaneamente de sua idia fixa, Lisa ajudou Karen a tirar a mesa do almoo e a enxugar os pratos. Feito isso, trocou de roupa para dar o passeio
prometido.
      Embora no estivesse chovendo quando as duas saram de casa, soprava um vento forte que levantou a saia curta de Lisa. Ela deu uma corrida e pulou no banco
do carro, ao lado de Karen.
      A ida ao zoolgico foi um achado. Lisa divertiu-se a valer com os diversos animais que viu e no pensou mais em Matt. Permaneceu um tempo diante das gaiolas
das aves pernaltas, admirando a maneira como ficavam em p numa perna s. Adorou tambm as jaulas dos lees, dos tigres e das onas, se bem que no largou um instante
a mo de Karen.
      Passava das cinco quando as duas voltaram para casa. Depois de comerem diante da televiso, Karen sugeriu que montassem um quebra-cabea at a hora de dormir.

      No dia seguinte, Lisa voltou  escola. De repente a casa pareceu vazia e silenciosa. Sem saber o que inventar para ocupar o tempo, Karen decidiu fazer uma
reforma completa na casa, pelo menos no que estivesse dentro de suas possibilidades.
      Na manh de quarta-feira, limpou todas as janelas da casa, por dentro e por fora, e retirou todas as cortinas para serem lavadas numa tinturaria.
      Na parte da tarde, fez uma faxina em regra na cozinha, inclusive nos armrios de frmica, nas estantes e prateleiras da copa.
      Na quinta-feira, fez uma arrumao completa no quarto de dormir, primeiro no seu, depois no de Lisa. Separou as roupas velhas num saco de plstico a fim de
d-las na primeira oportunidade aos pobres.
      No queria confessar que o motivo dessa atividade furiosa era Matt.
      No tivera mais notcias dele desde o sbado  noite e procurou convencer a si mesma que era melhor assim. Entretanto, continuava frustrada e deprimida com
a ausncia dele. Talvez Matt tivesse resolvido levar a srio suas palavras e no fosse procur-la mais, como ela prpria pedira tantas vezes. Esse pensamento, porm,
tinha o dom de mergulh-la na depresso.
      Na sexta-feira de manh, aps deixar Lisa na escola, Karen foi a uma loja de tintas e comprou tudo o que era necessrio para a reforma do banheiro. Era a nica
pea da casa que estava precisando urgentemente de uma boa pintura.
      Ao voltar para casa, com a lata de tinta e o rolo de papel de parede debaixo do brao, Karen lixou e preparou as superfcies de madeira que deveriam ser pintadas.
Em seguida, aps comer um sanduche e tomar um caf, cobriu o piso e a banheira com jornais a fim de iniciar a pintura dos batentes e das portas. Feito isso, apanhou
o banquinho de trs pernas e colocou-o no lugar indicado, por ser mais cmodo no espao limitado do banheiro do que a escada de dobrar.
      Com a cala velha e a blusa desbotada que vestia nessas ocasies, trabalhou sem interrupo at a hora de ir buscar Lisa na escola.
      - Mame, voc est coberta de tinta! - exclamou Lisa com uma risada ao pular no banco do carro e beij-la no rosto. - Voc tem pontinhos brancos no nariz,
na testa, no queixo...
      - Ah, meu Deus, eu sa de casa na correria e nem me olhei no espelho!
      Ela passou rapidamente um leno no rosto e voltou a ateno para a frente. Ao entrar em casa, preparou o lanche de Lisa e voltou ao banheiro, a fim de terminar
a pintura da porta antes do jantar.
      - Eu vou ver televiso - disse Lisa do corredor. - Esto reprisando os Flintstones.
      - Boa idia, amor - disse a Lisa sem afastar sua ateno do trabalho.
      Faltava apenas uma pequena parte para dar por encerrada a pintura do banheiro. Ela desceu do banquinho, colocou-o numa outra posio mais confortvel e tornou
a subir.
      No momento em que ficou na ponta do p para alcanar o alto da porta, perdeu o equilbrio e estendeu o brao, num gesto instintivo de defesa, para proteger
a queda. Infelizmente, a nica coisa que havia por perto para se segurar era a estante de vidro que no ofereceu nenhuma resistncia. A estante soltou-se da parede
e Karen despencou com o brao estendido. Bateu com o ombro na quina da banheira e caiu sentada no cho. No primeiro instante no sentiu nenhuma dor, apenas o susto
do tombo. Estava ofegante e com o corao batendo velozmente quando tentou se levantar.
      - Mame, o que foi? - gritou Lisa da sala. - Voc caiu?
      Lisa ouvira o barulho do banquinho e da lata de tinta que Karen segurava na mo e correu para a escada que levava ao andar de cima.
      - No foi nada, filha! Eu perdi o equilbrio e ca. Podia ter sido pior. - Nesse momento o telefone tocou na sala. - Atenda para mim, Lisa, e diga que eu estou
no banheiro e que no posso falar no momento. Pergunte quem  e pea para deixar o recado. Eu telefono depois.
      Lisa saiu correndo em direo ao telefone e Karen no ficou sabendo se ela transmitiu corretamente o recado ou no. Todo o seu esforo no momento estava concentrado
na difcil tarefa de levantar-se do cho.
      A perna esquerda, que batera na quina da banheira, no estava doendo muito. Era o ombro que parecia ter sofrido mais com a queda e ela quase berrou de dor
quando tentou levantar o brao esquerdo. Ser que estava quebrado? Seria o cmulo do azar, a essa altura! Com as pernas trmulas, Karen foi se arrastando at a sala
da frente e caiu sentada na cadeira no instante em que Lisa colocou o fone no gancho.
      - Quem era, corao?
      - Era Matt. Ele disse que vai passar aqui para ver como voc est.
      Karen passou a mo no rosto para afastar os cabelos que caam na testa e fez uma careta de dor.
      - Est doendo muito, mame? Voc vai para o hospital? Eu vou ficar sozinha aqui?
      Lisa estava com os olhos midos quando correu de braos abertos para Karen.
      - Por que voc est chorando, bobinha? Mame no tem nada.
      - Se voc for para o hospital, eu vou com voc.
      - Est bem, ns duas vamos juntas - disse Karen com um sorriso forado. - Escute, amor, ponha as garrafas vazias de leite na porta. Assim o leiteiro no precisa
tocar a campainha.
      Lisa saiu correndo para fazer o que Karen pediu. Minutos depois, a campainha da porta tocou. Era Matt.
      - O que aconteceu? Voc se machucou?
      - Eu ca do banquinho e bati com o ombro na quina da banheira.
      - Voc bateu com a cabea no cho?
      - No. S com o brao. No  nada srio. Amanh eu vou estar boa.
      Karen fez um esforo para levantar o brao e deu um gemido.
      - Est doendo muito? - perguntou Matt com a expresso preocupada.
      - Um pouco.
      - Qual  o telefone do seu mdico?
      - No precisa!
      - No seja teimosa.  claro que voc precisa ir ao mdico. Onde est' o caderninho de telefones? Como ele se chama?
      - O caderninho est em cima da mesa. Ele se chama dr. Ambrose.
      Matt telefonou para o consultrio e marcou hora para aquela mesma tarde. A sala de espera estava vazia quando chegaram. Quinze minutos depois Karen foi atendida
pelo mdico. Aps recolocar o ombro deslocado no lugar, o mdico esfregou uma pomada analgsica e enfaixou a parte dolorida da omoplata. Em seguida, fez uma tipia
para apoiar o brao e receitou alguns comprimidos que deveriam ser tomados de seis em seis horas nos dois primeiros dias.
      - Fique com a tipia at domingo. Se houver algum problema nesse meio tempo, ligue para mim.
      Na volta de carro para casa, Matt sugeriu que ela e Lisa ficassem hospedadas na casa dele na primeira semana.
      - Seria mais prtico e mais cmodo para voc. L, pelo menos, tem algum que cuida de Lisa.
      - No precisa. muito obrigada. Eu me viro sozinha.
      - Como voc vai fazer para levar Lisa  escola?
      - Eu dou um jeito. Tomo um txi...
      - Voc j imaginou cozinhar com o brao na tipia?
      - Eu me acostumo. J passei por situaes piores.
      - No seja teimosa, pelo amor de Deus! - exclamou Matt com impacincia. - Faa o que estou pedindo. Vamos todos l para casa.
      - Que mania voc tem de mandar em mim, santo Cristo!
      - Desculpe. Eu vou tomar a pedir com bons modos. - Matt fez uma pausa, engoliu em seco e passou os dedos entre os cabelos. - Karen, querida, voc no gostaria
de ficar hospedada na minha casa durante alguns dias?
      Ela deu uma risada sem querer.
      - Est bem. Eu vou aceitar o seu convite.
      - Assim  que eu gosto - disse Matt com um sorriso. - Vou arrumar as malas para voc. Basta voc separar os vestidos e as roupas que vai levar.
      Se Karen no estava muito animada com a idia da mudana, Lisa adorou o programa. A perspectiva de passar alguns dias na casa de Matt deixou-a to excitada
quanto o fim de semana na praia. L, pelo menos, tinha um jardim enorme onde ela podia brincar e correr, sem falar no cachorro perdigueiro com quem tinha feito amizade
na sua primeira visita.

      Meia hora depois, ao descer do carro. Karen experimentou uma sensao estranha quando Matt retirou as malas e aguardou por ela para subir a escada que levava
 sala da frente. A verdade  que ela no estava absolutamente preparada para passar vrios dias na companhia de Matt. Estava louca varrida quando aceitou o convite.
      - Eu vou telefonar para mame hoje  noite - disse sem jeito quando os trs se dirigiram  porta da frente. - Assim eu s vou incomod-lo uma noite.
      - Para mim no  incmodo nenhum. A casa  grande, tem diversos quartos vazios e Ann adora receber hspedes. S assim ela tem com quem conversar.
      - Ah, voc est dizendo isso para me consolar.
      - Juro que no. Alm disso, Ann  uma excelente cozinheira e ter ocasio de revelar seus talentos culinrios.
      - Desculpe todo esse trabalho que lhe dei - disse Karen, parando no meio da escada. - Eu no sei como lhe agradecer.
      - Sua companhia  o melhor agradecimento que voc pode dar.
      Matt voltou-se e segurou-a pelo brao. Lisa estava mais atrs, fazendo festa na cabea do cachorro perdigueiro. Os dois se entendiam s mil maravilhas e ele
no parava de abanar o rabo toda vez que a menina o abraava.
      - Vamos entrar. Eu estou com a garganta seca. Faz uma 'hora que venho adiando a vontade de beber um usque.


      Captulo VII

      Com a ajuda de Ann, Karen tomou banho, trocou de roupa e passou uma malha em cima dos ombros. Os comprimidos que o mdico receitou estavam fazendo efeito e
a dor aguda no ombro perdeu a intensidade, transformando-se apenas numa sensao dolorosa.
      - Precisa de mais alguma coisa? - perguntou Ann.
      - No, muito obrigada. No sei o que eu faria sem voc.
      - Ah, no foi nada.
      - Voc sabe o que Lisa est fazendo l embaixo?
      - Est brincando com o cachorro no jardim.
      - Ah, ainda bem que ela se adapta facilmente aos lugares e s pessoas.
      - Lisa  uma menina muito boazinha. Ningum precisa tomar conta dela. No  de fazer travessuras quando a gente vira as costas.
      - Espero que no - disse Karen com um sorriso de orgulho. - Em geral, ela se comporta bem na casa dos outros.
      - Eu vou estar na cozinha at a hora do jantar. Se voc precisar de alguma coisa, basta me chamar ou tocar a campainha.
      - Muito obrigada, Ann. Eu vou secar os cabelos e descerei dentro de meia hora.
      Depois que Ann saiu, Karen examinou com calma o quarto onde estava hospedada. Era bem feminino e tinha cortinas leves de voile, papel de parede com desenhos
bonitos e uma moblia clara e funcional. Lisa estava num quarto igual ao seu, separado apenas por uma porta.
      Karen foi at o balco da janela e debruou-se na grade de ferro. O jardim era bem cuidado e cercado por rvores altas que isolavam, a casa das residncias
vizinhas. Da janela do quarto tinha-se uma vista magnfica da baa, at o centro de Auckland. As luzes da cidade comeavam a ser acesas por partes, formando um desenho
intrincado que se cruzava em diversas direes. Barcos de pesca e veleiros de passeio estavam ancorados nas guas calmas da enseada.
      - Gostou do quarto?
      Karen voltou-se e avistou as feies morenas de Matt na penumbra da tarde.
      - A vista daqui  maravilhosa. No me canso de olhar para a baa, para as fileiras de luzes que se perdem no horizonte. Tudo isso  muito belo e evocativo.
Lembra um grande brinquedo de armar.
      Matt balanou a cabea lentamente.
      -  muito bonita, realmente. E seu ombro? Melhorou?
      - Melhorou um pouco. A dor forte passou.
      - Logo voc estar nova em folha.
      - E Lisa, o que est fazendo? Ela se comportou bem?
      - Muito bem. No momento est vendo televiso.
      - Ah, bom.
      - Eu vim convid-la para tomar um drinque antes do jantar.
      - J so sete horas? - exclamou Karen, surpresa. - No fazia idia que fosse to tarde...
      Lisa estava deitada de bruos no tapete da sala, assistindo televiso. Dirigiu um sorriso para Karen e voltou a ateno para o programa at o momento de ir
para a mesa.
      O jantar compreendia trs pratos e Karen provou um pouco de cada um. Apesar do incmodo que sentia no ombro, no perdera completamente o apetite e no teve
dificuldade em tomar a sopa com a mo livre. Entretanto, quando chegou a vez do prato principal, Matt ofereceu-se para cortar a carne em pedacinhos, para, Karen
poder espet-los com a ponta do garfo.
      - Que trabalho eu estou dando - disse Karen, sem jeito.
      - Voc voltou a ser criana - comentou Matt com um sorriso. Terminado o jantar, os dois foram tomar caf na sala de msica.
      - Eu vou dormir mais cedo hoje - disse Karen em dado momento. - Lisa pode estranhar o quarto e acordar assustada no meio da noite. Preciso estar por perto
para atend-la, em caso de necessidade.
      Ela se levantou do sof e deu a mo  Lisa, que estava cochilando no colo de Matt. A menina esfregou os olhos e deu um bocejo comprido.
      - Boa noite, Matt.
      - Boa noite, boneca. Durma bem.
      Depois que Lisa escovou os dentes e deitou-se na cama, Karen leu para ela uma histria, como era costume quando as duas estavam sozinhas em casa.
      Minutos depois ela adormeceu e comeou a respirar regularmente. Karen ajeitou o travesseiro, fechou a porta com cuidado e dirigiu-se ao seu quarto.
      - Lisa j dormiu?
      Ela levou um susto com a pergunta. Voltou-se e avistou Matt, apoiado no batente da porta:
      - J. Ela estava tonta de sono. Foi s fechar os olhos e dormir.
      - Olhe, voc esqueceu isso l embaixo.
      Matt estendeu o vidrinho de analgsico.
      - Ah, foi bom voc ter me lembrado. Vou tomar mais um antes de dormir.
      - Est doendo ainda?
      - Um pouquinho.
      - Ann j foi dormir. Voc quer ajuda para trocar de roupa?
      - No precisa - disse Karen com embarao. - Eu me viro sozinha. Muito obrigada.
      - Como voc vai soltar o suti?
      - Eu dou um jeito.
      - Deixe eu soltar para voc.
      - Voc quer fazer papel de enfermeira?
      - No, estou querendo apenas ajud-la. Desabotoe a blusa que eu solto o fecho do suti, de olhos fechados, se voc preferir.
      Karen ficou parada, com os braos cados ao longo das pernas,  espera do que viria em seguida. Entretanto, quando os dedos dele tocaram os botes da blusa,
ela ficou toda arrepiada e deu um passo para trs.
      - Pode deixar. Eu me dispo sozinha.
      Matt ignorou a recusa e comeou a desabotoar a blusa. Soltou em seguida a fivela do cinto e o fecho do suti nas costas.
      - Pronto. Agora o resto  com voc.
      - Muito obrigada.
      - Se precisar de alguma coisa durante a noite, meu quarto  o ltimo do corredor. Durma bem.
      Depois que Matt saiu e fechou a porta atrs de si, Karen comeou lentamente a despir-se. Era incmodo fazer as coisas mais simples com o brao na tipia. Mesmo
assim, conseguiu retirar a roupa do corpo e vestir a camisola que estava pendurada no cabide. Em seguida, tomou dois comprimidos de analgsico, como o mdico tinha
receitado.
      Uma hora depois, no entanto, continuava acordada, sem sono. Estendeu o brao, acendeu a luz da cabeceira e ficou perplexa ao constatar que no era meia-noite
ainda. Se ao menos tivesse um livro para ler, at mesmo uma revista serviria nessa circunstncia. Lembrou-se de que tinha visto uma estante repleta de livros na
sala da frente. Claro que Matt no faria nenhuma objeo se apanhasse um ou dois livros para ler no quarto.
      Levantou da cama, passou o robe nos ombros e foi at o quarto de Lisa. A menina estava dormindo tranqilamente e mal se ouvia sua respirao regular. Karen
afastou-se na ponta dos ps e desceu a escada. Parou indecisa ao chegar ao hall, sem saber onde era o interruptor. A luz que saa da porta aberta do seu quarto fora
suficiente para iluminar os degraus da escada, mas o hall estava escuro como breu e ela no queria tropear num mvel ou derrubar algum objeto no cho.
      - Voc precisa de alguma coisa?
      Matt estava em p no alto da escada e, visto daquele ngulo, seu corpo assumia uma proporo assustadora.
      - Ah, que susto voc me deu!
      - Ouvi passos e vim ver o que era.
      - Eu no consegui dormir e desci para procurar um livro na sala. Mas no encontrei o interruptor da luz. Desculpe se eu o acordei...
      - Eu no estava dormindo. Ia fazer um chocolate para mim. Voc toma tambm?
      - Boa idia. Talvez isso me ajude a dormir.
      - Volte para o quarto que eu levo l.
      Karen estava sentada na cabeceira da cama, com o lenol puxado at o pescoo, quando Matt entrou com a bandeja numa mo e alguns livros e revistas na outra.
      - Eu no sei do que voc gosta, por isso trouxe diversos livros. Trouxe tambm algumas revistas da semana.
      Ele colocou a bandeja em cima da mesinha de cabeceira e as revistas e livros na cama, ao lado dela. Uma intimidade estranha criara-se de repente no quarto.
Karen tinha vontade de abra-lo e beij-lo com ternura. Mau era de fato uma simpatia, como sua me dissera.
      - Tome o chocolate antes que esfrie.
      Karen bebeu obedientemente um gole.
      - Que gostoso! O que foi que voc ps?
      - Um gole de licor de cacau.
      - Ah,  por isso que eu senti um gosto diferente. Voc quer me embebedar?
      - S tem um pinguinho de nada. Eu achei que o lcool facilitaria o sono.
      - Pode ser.
      - Tome at o fim. Depois vou deix-la com suas leituras.
      - Voc  um anjo.
      O licor estava comeando a produzir seu efeito. Karen sentiu-se deliciosamente quente e bem disposta, como se tivesse sado de um banho de imerso.
      - Agora eu vou dormir como uma pedra - disse ela com um suspiro de satisfao quando Matt tirou a xcara vazia de sua mo.
      - At amanh. Sonhe com os anjos.
      - Eu no agradeci ainda por tudo o que voc fez por mim - disse Karen, desejando subitamente prolongar a conversa. - Nem pela hospitalidade generosa que voc
ofereceu a Lisa e a mim.
      - Voc pode me agradecer num momento mais oportuno - disse Matt, com um sorriso malicioso. - Por enquanto, basta apenas um beijo.
      Karen prendeu a respirao quando a boca dele pousou sobre a sua. Ela gostaria de prolongar aquele instante por uma eternidade. Bastava o menor contato fsico
para sentir-se mole e sem fora nos braos dele. Era incrvel a atrao que Matt exercia sobre ela.
      - Acho bom eu ir embora antes que perca a cabea - disse Matt, soltando-a com um suspiro. - No  justo que me aproveite de voc nessas circunstncias. Durma
bem, querida.
      Karen deu um gemido e ajeitou-se na cama quando ele saiu do quarto e fechou a porta por fora. Apanhou os livros que estavam em cima da mesinha de cabeceira
e percorreu-os rapidamente com a vista. Escolheu um romance passado no Oriente e procurou concentrar a ateno na leitura. Seus olhos no entanto estavam pesados
de sono e as palavras se embaralhavam na sua frente. Era impossvel dirigir a ateno para a leitura quando o pensamento estava em outra parte. Estendeu o brao
e apagou a luz de cabeceira.

      Karen acordou no sbado de manh com o rudo de algum puxando as cortinas do quarto. No instante seguinte sentiu o cheiro gostoso de caf.
      Ao voltar a cabea para o lado, avistou a bandeja colocada em cima da mesinha de cabeceira. Havia torradas, bolachas, um pote de gelia de laranja, outro de
mel e um terceiro de manteiga.
      - Bom dia - disse Ann com um sorriso. - Dormiu bem?
      - Muito bem, obrigada, Ann. Acho at que perdi a hora.
      -  cedo ainda. Lisa j acordou e est brincando no quintal.
      - Que horas so?
      - So nove e meia.
      - Nove e meia! Que vergonha! Nunca dormi at to tarde na minha vida - disse Karen, levantando-se da cama.
      Minutos depois Lisa entrou no quarto correndo, com o rosto radiante.
      - Mame, Matt deixou um recado para voc. Ele disse que foi ao clube jogar uma partida de golfe, mas que vai estar de volta ao meio-dia. Disse tambm que vai
me levar ao cinema hoje  tarde, com Jeremy. E amanh, se o tempo estiver bom, ns vamos passar o dia no clube, vamos tomar banho de piscina e comer um churrasco
na.praia. Jeremy vai conosco, tambm.
      Lisa fez uma pausa para tomar flego e Karen aproveitou para beij-la no rosto.
      - E quais so as outras novidades?
      - Voc j viu o cachorro que Matt tem? Ele se chama Dick e  mansinho, mansinho. Ann tem um gatinho branco com uma pintinha na pata, como os porquinhos-da-ndia
l da escola. Posso comer uma torrada com gelia?
      - Pode, corao. Depois que eu terminar de tomar caf, queria que voc me ajudasse a vestir a blusa e a saia.
      - Falou - disse Lisa, passando gelia na torrada.
      Ann caiu na risada. Embora estivesse ocupada com a arrumao do quarto, ouvia tudo o que as duas diziam.
      - Onde voc aprendeu a dizer isso, Lisa?
      - Na escola - respondeu Lisa com a boca cheia.
      - No fale com a boca cheia, filha.  feio...
      - Desculpe, mame. Foi sem querer.

      Depois de trocar de roupa e escovar os cabelos, Karen acompanhou Lisa at o quintal. A.menina fez questo absoluta de apresent-la a Dick, o cachorro perdigueiro,
um verdadeiro brutamonte, se bem que fosse manso como um cordeiro, especialmente com as crianas pequenas, por quem tinha um xod especial.
      Dick recebeu as duas com manifestaes de alegria e saltou em volta de Lisa, abanando o rabo comprido. Depois sentou nas patas traseiras e deixou que a menina
lhe afagasse a cabea e o pescoo.
      - Est vendo, mame? Ele  mansinho...
      - Estou vendo, filha - concordou Karen, fazendo festa na cabea do cachorro. - Mesmo assim, acho bom voc no abusar. A pacincia dele tem um limite.
      - Ele no morde, mame. No tem perigo.
      Lisa soltou de repente a cabea de Dick e voltou-se em direo ao porto.
      - Olhe s quem est chegando!
      Karen voltou-se tambm e avistou o Jaguar dirigido por Matt. Lisa saiu na corrida e foi receber Jeremy, que vinha no banco da frente, s com a cabea aparecendo.
Matt segurou-a nos braos e levantou-a no alto no momento em que Lisa se aproximou do carro. Karen ouviu de longe a gargalhada alegre da menina.
      - Ento, melhorou? - perguntou Matt aps botar Lisa no cho. - Dormiu bem?
      - Dormi muito bem e estou me sentindo outra.
      - O ombro ainda est doendo?
      - Quase nada. S incomoda quando eu fao um movimento brusco.
      - Voc tomou os comprimidos que o mdico receitou?
      - Tomei. - Ela se sentia como uma adolescente que presta contas de cada coisa que faz. - Lisa me contou que voc vai levar os dois ao cinema hoje  tarde.
Pode deixar que eu levo, no precisa ter esse trabalho.
      - Eu gosto muito de passear com eles. Vamos entrar? Voc no quer tomar um aperitivo antes do almoo?
      - Almoo? Eu acabei de tomar caf!
      Mesmo assim, Karen sentou-se  mesa com os outros e tomou um prato de sopa. Comeu em seguida duas fatias do rosbife com uma colher de salada de batatas. Na
sobremesa, comeu apenas uma fruta, em vez de ,provar o pudim de chocolate que Ann tinha feito e que as crianas adoraram.
      A casa parecia muito silenciosa depois que Matt saiu com as duas crianas. Karen instalou-se na sala de msica e apanhou um livro na estante. O ombro continuava
dolorido e a perna estava incomodando ligeiramente na altura do quadril, onde ela tinha batido na quina da banheira.

      Aquela noite, depois do jantar, Matt fez questo de levar pessoalmente Jeremy para a cama. Enquanto isso, Lisa contou a Karen alguns pedaos do filme que tinham
visto  tarde. Ela estava maravilhada com a aventura passada no meio das estrelas e de outros planetas da nossa galxia.

      No dia seguinte, Matt levou Karen e as duas crianas para conhecerem a piscina de gua quente que havia na reserva florestal de Helensville. Saram cedo de
casa e levaram no porta-malas do Jaguar uma churrasqueira porttil, bem como todos os apetrechos necessrios.
      Karen contentou-se em sentar-se na beira da piscina enquanto as duas crianas brincavam e mergulhavam na gua. Matt estava com um calo justo, que acentuava
os ombros largos e as pernas bem feitas.
      Depois que as crianas e Matt trocaram de roupa, os quatro se dirigiram a um bosque onde havia diversas mesas ao ar livre.
      - Aqui est bom? - perguntou Matt, colocando os apetrechos do churrasco em cima da mesa.
      - Est timo.
      As duas crianas correram e se instalaram nos bancos de cimento.
      - Voc precisa de ajuda?
      - Por enquanto, no. Vou armar a churrasqueira e acender o carvo.
      Minutos depois, os espetos de carne de boi e de porco estavam assando em cima da brasa. Havia tambm pedaos de galinha, de lingia e algumas salsichas para
as crianas. O churrasco foi acompanhado de arroz e de uma salada completa de legumes e verduras, que Ann tinha preparado na vspera.
      - Quer mais, boneca? - perguntou Matt a Lisa.
      A menina estava corada e com o rosto radiante.
      - No, muito obrigada - disse ela com a boca cheia.
      - E voc, Jeremy?
      - Eu queria mais um pedao de galinha.
      No fim da tarde, antes de voltarem para casa, Matt passou pelo cais do porto. Lisa e Jeremy ficaram deslumbrados com os barcos e navios que estavam atracados.
Havia inclusive alguns navios de passageiros que se preparavam para partir com destino  Europa.
      Ao chegarem em casa, pelas sete da noite, Lisa estava to cansada com as peripcias do dia que foi diretamente para a cama.
      - Voc no quer tomar uma canja? - perguntou Matt, depois que Karen ps a filha para dormir e foi  cozinha apanhar um copo d'gua.
      - Muito obrigada. Eu comi demais no almoo. O churrasco estava divino, vou aproveitar e deitar mais cedo. Boa noite, Matt.
      - Boa noite, Karen. Durma bem.
      - Voc tambm.
      Karen acordou no meio da noite com um pesadelo horrvel. Sentou-se na cabeceira da cama e passou a mo nos olhos, como se quisesse afastar para longe as imagens
medonhas que atormentavam seu sono. De repente foi tomada de ansiedade, ao pensar que podia ter berrado dormindo, como tinha acontecido algumas vezes antes.
      De fato, alguns minutos depois ela ouviu uma batida leve na porta.
      Acendeu a luz da cabeceira e perguntou da cama, sem se levantar:
      - Quem ?
      - Sou eu. Voc est passando bem?
      - Ah, eu tive um pesadelo horrvel.
      Matt entrou no quarto e ficou parado ao p da cama.
      - Eu ouvi seu grito.
      - Ah, desculpe - disse Karen sem jeito. - Eu o acordei?
      - No. Eu estava lendo. Voc quer tomar alguma coisa?
      - No, muito obrigada.
      - No custa nada. Eu vou buscar um conhaque para voc tomar.
      Ele estava perto da porta quando ela o chamou.
      - Matt...
      - O que foi?
      - No v.
      Havia uma expresso de splica na fisionomia dela que o surpreendeu.
      - Voc prefere uma bebida quente? Um chocolate? Um caf?
      Karen balanou a cabea, sem afastar os olhos dele.
      - No, eu no quero nada. Fique um pouquinho comigo. Voc no faz idia do pesadelo horrvel que eu tive...
      Uma lgrima rolou pela face plida, seguida de uma segunda e de uma terceira. Ela levantou a ponta do lenol e enxugou os olhos sem jeito.
      - Voc quer conversar sobre isso comigo?
      Karen hesitou um segundo antes de balanar a cabea negativamente.
      - Eu no consigo falar nesse assunto...
      Se contasse uma parte, teria que revelar a histria inteira, as duas horas de pnico e de humilhao que passara com Brad no quarto do hotel, durante a viagem
de lua-de-mel. Contar esses detalhes estava acima de suas foras, pelo menos no momento.
      - Esses pesadelos ocorrem freqentemente? - perguntou Matt, procurando abordar o assunto de um outro ngulo.
      - No... De tempos em tempos. Fazia um tempo que eu no tinha um pesadelo to horrvel quanto esse...
      Karen apoiou a cabea no ombro dele e sentiu-se momentaneamente segura. Tinha vontade de fechar os olhos e dormir assim, protegida por ele.
      - Voc no quer contar para mim como foi?
      - Ah, foi horrvel! Acordei sobressaltada, como se Brad estivesse de novo comigo. Ah, eu no gosto nem de pensar nessas coisas. So horrveis demais.
      - Procure dormir agora.
      - Eu bem que gostaria...
      Matt apoiou a cabea dela no travesseiro e enrolou um cacho de cabelos entre os dedos.
      - Eu vou ficar aqui at voc dormir. Procure relaxar os msculos do corpo, um de cada vez. Relaxe as tenses, esquea as ansiedades. Eu vou apagar a luz. Procure
dormir sem pensar em nada. Amanh voc acordar se sentindo bem disposta.
      Karen deu um suspiro fundo e mergulhou a cabea no travesseiro. Pouco depois, sentiu as plpebras pesadas e adormeceu sem perceber.
      Acordou no meio da noite e viu que a luz da cabeceira continuava acesa. Com os olhos pesados de sono, estendeu o brao e desligou o interruptor. Um ligeiro
movimento do outro lado da cama chamou sua ateno. Ela se voltou e avistou Matt deitado ao comprido, com os braos cruzados sobre o peito.
      Levantou a cabea lentamente e deu um gemido ao sentir uma pontada no ombro dolorido. Matt abriu os olhos no mesmo instante e fitou-a com um sorriso nos lbios.
Os olhos castanhos pareciam mais brilhantes na penumbra do quarto.
      Ela ficou parada, sem oferecer nenhuma resistncia, quando a mo dele percorreu o contorno de sua boca, o queixo, a curva do pescoo, at a regio sensvel
do busto. Uma onda de prazer inundou seu corpo quando ele acariciou os seus seios por baixe da camisola e ela deu um gemido baixinho quando ele a beijou no colo
descoberto.
      Foi somente quando a mo dele pousou sobre a cintura que ela despertou de todo e tomou conscincia do que estava acontecendo.
      - No, Matt!
      De repente o medo tomou conta de sua imaginao e provocou um espasmo de enjo, como se ela fosse vomitar.
      - Por que, Karen? Por qu?
      Ele procurou vencer a recusa cobrindo-a de beijos, mas ela debateu-se e virou a cabea para o lado, impedindo que ele a beijasse na boca. Estava trmula de
medo e de ansiedade quando Matt se afastou finalmente e observou-a em silncio. A frustrao estava visvel nos seus traos.
      - Desculpe, Matt, mas eu tenho medo.
      Ele passou os dedos por entre os cabelos revoltos.
      - Eu tambm lhe peo desculpas. Perdi a cabea...
      - A culpada fui eu. Eu no devia ter pedido para voc me fazer companhia aqui no quarto.
      - Voc prefere que eu v embora?
      Diante do silncio dela, Matt levantou-se e apertou o cinto do robe de chambre.
      Depois que Matt saiu do quarto, Karen continuou acordada algum tempo, a cabea agitada por toda sorte de pensamentos confusos. Devia ir embora? Ficar mais
um dia? Como podia sair daquela casa no meio noite, com um brao na tipia? Era loucura!
      Por outro lado, estava profundamente envergonhada Com o episdio recente. Sua conduta fora ridcula. Ela se comportara realmente como uma adolescente assustada.
Matt tinha toda razo de sentir desprezo por sua timidez.


      Captulo VIII

      - Eu vou voltar para casa quando Ben trouxer Lisa da escola - declarou Karen com firmeza. - Voc pode transmitir esse recado a Ben, por favor, Ann?
      - Pois no - disse Ann, surpresa com a deciso repentina de Karen. - Mas por que voc no fica um pouco mais conosco? Matt vai chegar no fim da tarde.
      - Eu preciso voltar, Ann. H trabalho  minha espera em casa. Alm disso, estou bem melhor e eu no dependo mais dos outros para as pequenas tarefas domsticas.
Matt foi muito amvel durante os dias que passei aqui. Alis, eu queria agradecer a voc tambm, Ann, por tudo o que voc fez por ns duas.
      - Foi um prazer - disse Ann com sinceridade. - Volte sempre.
      - Vou subir e fazer as malas. J so quase duas horas e Ben logo deve estar de volta.
      - Karen, voc no acha que devia esperar Matt voltar? - insistiu Ann ao ver Karen dirigir-se para o alto da escada. - Ele vai ficar zangado comigo por ter
deixado voc ir embora sem se despedir dele...
      - Infelizmente eu no posso ficar mais, Ann.
      Karen no podia explicar a Ann a razo de sua partida repentina. Ela tinha que sair antes que Matt voltasse para casa no fim da tarde. Por nada desse mundo
ela queria encontr-lo frente a frente depois do incidente humilhante da noite anterior.
      Lisa aceitou a explicao de Karen e no fez nenhum comentrio, nem manifestou o desejo de ficar mais algumas horas na casa, pelo menos at Matt voltar do
trabalho. Apanhou suas coisas e acompanhou a me at o carro estacionado no ptio. Ben conduziu as duas de volta para Remuera, o bairro da periferia de Auckland
onde Karen morava.
      Ao chegar em casa no fim da tarde, Karen preparou o jantar, enquanto Lisa punha os pratos e talheres na mesa. Ela se sentia de volta ao mundo a que estava
habituada, onde as tenses do cotidiano no interferiam em sua vida sossegada.
      s oito e meia Lisa comeou a bocejar e Karen levou-a para a cama.
      Em seguida, voltou  sala de estar e procurou um programa interessante na televiso. Seu pensamento, porm, estava dirigido para outra parte e ela no conseguia
concentrar a ateno nos filmes que exibiam aquela noite.
      Finalmente, aps trocar de canal diversas vezes sem sucesso, Karen resolveu tomar banho e preparar-se para dormir. Era prefervel ir para a cama mais cedo
com um livro na mo do que ficar sentada na sala, assistindo a um programa que no despertava o menor interesse.
      O banho de chuveiro produziu um efeito relaxante sobre os msculos e Karen prolongou por mais alguns minutos a sensao repousante de receber a gua quente
nos membros doloridos. Em seguida, enxugou-se vigorosamente na toalha e vestiu o robe de chambre que estava pendurado no cabide do banheiro. Estava voltando para
o quarto quando ouviu a campainha da porta tocar.
      S havia uma pessoa que podia procur-la quela hora, pensou Karen, descendo a escada com o corao batendo rapidamente.
      - Quem ?
      - Sou eu, Karen. Preciso falar com voc. Abra a porta por favor. - Karen apertou o cinto do robe a fim de sentir-se mais protegida e estendeu a mo para a
maaneta.
      - Eu j estava na cama. Desculpe meus trajes...
      No espao apertado do hall, Matt parecia mais alto e mais forte do que habitualmente e Karen sentiu-se intimidada na sua presena. Matt observou-a um instante
de alto a baixo antes de inclinar o tronco e lhe dar um beijo na boca.
      A ao inesperada produziu nela uma sensao esquisita de tontura. Aspirou o perfume forte que ele estava usando e sentiu um sopro quente no rosto.
      - O que voc quer? - perguntou Karen, procurando dominar a atrao que sentia com uma atitude exagerada de reserva. - Ann no lhe deu meu recado?
      - Deu - disse Matt distraidamente. - Ah, Karen, o que eu vou fazer com voc, hein? Voc ficou brava comigo por que eu dormi na sua cama?
      -  claro! S podia ficar...
      Matt ignorou o comentrio.
      - Vou viajar amanh e pretendo passar alguns dias fora. Eu iria muito mais sossegado se voc ficasse hospedada l em casa. Ann e Ben cuidariam de voc e de
Lisa enquanto eu estivesse fora.
      Embora se sentisse inclinada no primeiro momento a aceitar a sugesto, Karen preferiu recusar o convite, guiada pelo bom senso.
      - Muito obrigada, Matt, mas eu prefiro ficar na minha casa.
      - H uma outra alternativa - disse Matt, fitando-a no fundo dos olhos. - Voc e Lisa poderiam vir comigo...
      Os olhos dela escureceram at tomarem a tonalidade de safiras.
      - Voc est perdendo seu tempo, Matt. Eu no sou a mulher livre que voc gostaria que eu fosse. Por que voc no convida Berenice? Voc  um homem charmoso,
rico, dono de uma casa fabulosa, mas eu no sou ingnua a ponto de achar que a felicidade consiste nesses bens materiais...
      Matt balanou a cabea com o rosto fechado.
      - Por que voc faz mal juzo de mim?
      - Eu estou acostumada a receber propostas desse tipo. Os homens so terrivelmente convencidos. Eles pensam que obtm tudo o que querem com promessas de conforto
e de bens materiais. Pois eles esto completamente enganados.
      - Voc no me deixou terminar - disse Matt com pacincia.
      - Uma proposta desse tipo no precisa ser ouvida at o fim.
      - Nem mesmo quando inclui um pedido de casamento?
      Ela arregalou os olhos e encarou-o em silncio, atnita, os braos cados ao longo do corpo. Seu corao comeou a bater to depressa que ela sentiu uma contrao
na boca do estmago. Estava branca como cera.
      - Voc est brincando... - murmurou por fim.
      - Dou minha palavra de que estou falando srio.
      A incredulidade estava visvel nos olhos espantados de Karen.
      - Ns mal nos conhecemos...
      - E da? Trs semanas ou trs anos, que diferena faz?
      - No, isso  loucura! - exclamou Karen sem conter mais tempo seu espanto.
      - Nenhuma outra mulher me perturbou tanto at hoje quanto voc. Sua lembrana me persegue... Eu penso constantemente em voc, mesmo quando estou dormindo.
Sua imagem no me sai da cabea.
      - Eu no posso me casar com voc! - interrompeu Karen, com a voz alterada pela emoo.
      - Voc tem tanto horror assim de mim?
      - No  isso! Eu tenho tudo o que necessito... Casa, carro, dinheiro no fim do ms para fazer o que bem entendo. Eu no preciso trabalhar para sustentar Lisa.
Aceitei aquele emprego apenas para ter uma atividade...
      - O que voc acha que eu vou fazer? Prend-la em casa?
      - Voc no compreende - disse Karen em voz baixa, afastando a cabea.
      - Explique para mim. Eu juro que no entendo, mesmo.
      Ela estava dividida entre a vontade de confessar e a repugnncia de abordar um assunto odioso, srdido. A lembrana de Brad prendia-se inevitavelmente a um
passado humilhante.
      - Eu no posso me casar com voc - repetiu obstinadamente.
      - Voc ainda gosta do seu primeiro marido?
      - No! - exclamou Karen com os lbios trmulos. - Eu o odeio...
      - Ento, por qu?
      Ela deu um suspiro de cansao, como se a raiva inicial tivesse sido substituda pouco a pouco por um peso terrvel que ameaava esmag-la.
      - Aceite minha palavra, Matt. Eu no posso me casar com voc.
      - Eu gosto de voc, Karen. Estou disposto a aceitar qualquer explicao que voc der.
      Os olhos dela estavam dilatados, prestes a confessar a verdade, mas Karen hesitou no ltimo instante, como algum que recua assustado diante do abismo.
      - Eu no posso...
      - Eu no sou mais o adolescente que tem iluses sobre a vida, Karen. Sei o que sinto por voc. Eu a desejo como mulher, como amiga, de uma forma que nunca
desejei nenhuma outra mulher antes, e tenho certeza que, se voc confiar em mim, ns poderemos superar qualquer obstculo que haja para nossa unio...
      Karen sentiu subitamente uma fraqueza nas pernas, como se fosse desmaiar. A cabea estava tonta, a garganta seca e a lngua grudada no cu da boca. Ela nunca
se sentira to perturbada assim desde a noite do seu casamento, quando descobrira horrorizada a verdadeira personalidade de Brad.
      - Vamos sentar um pouco? - murmurou, levando a mo  testa. - Eu estou meio tonta...
      - Voc quer tomar um conhaque?
      Sem aguardar a resposta, Matt foi ao armrio das bebidas e voltou com uma garrafa e dois clices na mo.
      Karen virou a bebida que Matt lhe estendeu e sentiu no mesmo instante um calor lhe percorrer as veias. Levantou a cabea com determinao e encarou-o no fundo
dos olhos.
      - Eu tinha dezenove anos quando conheci Brad. Ele era um rapaz bonito, simptico, um encanto de pessoa. Decidimos casar de uma hora para a outra, contra o
conselho dos pais e dos parentes mais velhos. Eu era completamente ingnua e acreditei piamente em todas as palavras que Brad dizia. Jamais me passou pela cabea
que Brad tivesse segundas intenes no dia em que me pediu em casamento. Foi somente na noite de npcias que eu descobri a verdade. Eu fui um joguete nas mos dele,
que se casou comigo para se vingar de outra mulher. Da noiva que o abandonou, faltando alguns dias para o casamento. Eu servi a seu plano de vingana porque, por
infelicidade, eu tinha uma grande semelhana fsica com ela. E Brad s satisfez sua sede de vingana no dia em que me possuiu  fora no quarto do hotel, onde passamos
a primeira noite da lua-de-mel.
      Karen fez uma pausa e bebeu outro gole de conhaque. Os lbios estavam lvidos e um tique nervoso repuxava o msculo do canto da boca.
      - E a?
      - Quando acordei algumas horas depois, no meio da noite, Brad tinha partido.
      - Voc nunca mais o viu?
      - No. Quando fui  portaria do hotel, um investigador de polcia informou-me que o carro de Brad fora encontrado no fundo de um barranco e que ele tinha morrido
ao ser levado para o hospital.
      - Que tragdia!
      - Depois disso, adotei meu nome de solteira, mudei de cidade e procurei um emprego. Foi ento que descobri estar grvida. A princpio eu no queria aceitar
o filho de Brad, foi s com o tempo que me habituei  idia. Lisa nasceu de parto prematuro e quase morreu. Passou uma semana na incubadora, entre a vida e a morte.
Foi isso talvez que me fez mudar de idia. Eu desejei ardentemente que ela vivesse. Ela passou a ser minha, s minha. Brad nunca mais viria me cobrar a filha. Mesmo
agora eu no gosto de lembrar que Lisa tem alguns traos do pai.
      Um silncio comprido seguiu-se a essa confisso. Matt mexeu-se no sof antes de apanhar o clice de conhaque que deixara em cima da mesinha baixa de centro.
      - Meu pedido continua de p. Voc quer casar comigo?
      Karen voltou-se de frente para ele, com a fisionomia alterada pela emoo.
      - Mas eu acabei de explicar que no posso me casar!
      - Sua explicao s se aplica a Brad, ou a homens como Brad. Pelo que entendi, Brad tinha uma fixao doentia na mulher que o abandonou. Voc foi a vtima
involuntria de um neurtico. Eu e voc no somos pessoas doentes. O passado ficou para trs, Karen.
      - Como eu posso saber que seu sentimento por mim no  apenas um desejo fsico frustrado?
      - Hoje em dia ningum mais se casa por esse motivo - disse Matt com um sorriso. - Esse tempo j passou.
      - Mas eu tenho Lisa...
      - Tanto melhor! Como voc percebeu, ns dois nos damos maravilhosamente bem.
      - Ah, eu preciso refletir com calma! - disse Karen, no momento em que Matt a beijou nos lbios. - Por favor, me d um tempo...
      - Eu vou viajar amanh para Christchurch. Voc ter alguns dias para resolver isso com toda a calma. Vou telefonar amanh  noite do hotel para saber notcias.
No se esquea de que seu ombro ainda est inflamado e voc necessita de repouso. Mandei um pintor vir aqui para terminar o servio no banheiro. S assim voc no
ter mais que subir no banquinho. Est contente?
      - Ah, muito obrigada. Eu no sei como lhe agradecer todo o trabalho que lhe dei.
      - Case-se comigo.
      - Vou pensar - disse Karen com um sorriso.
      Depois de se despedir de Matt, na porta de casa, Karen sentou-se no sof da sala e terminou de beber seu clice de conhaque. Os acontecimentos da ltima hora
estavam comeando a produzir efeito e ela estava com a cabea completamente zonza e no sabia o que pensar da situao inesperada.
      Era loucura querer fidelidade ou segurana na companhia dos homens.
      Todos eles s tinham uma idia na cabea, sexo. No era amor nem ternura o que sentiam...
      Alm disso, fazia apenas trs semanas que os dois se conheciam. Como era possvel, num espao to curto, conhecer algum na intimidade? Sem contar que os dois
se agrediam como co e gato toda vez que se encontravam a ss. Que esperana podia haver num relacionamento desse tipo? E ela no podia pensar unicamente em si mesma,
tinha que pensar tambm em Lisa. Matt seria sempre o pai carinhoso que ela desejava para a filha? O fato de se darem bem no momento no era nenhuma garantia para
um relacionamento a longo prazo.
      Alm disso, como reagiria sexualmente a Matt?, O que faria se sentisse averso por ele nos primeiros contatos? Nos ltimos anos, ela tentara ignorar as exigncias
do sexo. Agora, no entanto, estava despertando de novo para o mundo palpitante dos desejos fsicos. Matt excitava-a como nenhum homem, mas nada impedia que ela se
cansasse dele, ou ele dela. Sem falar que o sexo podia ceg-la momentaneamente para questes muito mais importantes.
      Absorta nos pensamentos que agitavam sua imaginao, Karen se recolheu tarde aquela noite. Rolou de um lado para o outro da cama, sem poder dormir. Finalmente,
aps tentar todos os recursos que sabia para facilitar o sono, levantou-se e tomou dois comprimidos para dormir. Agora pelo menos teria um sono tranqilo e acordaria
com disposio no dia seguinte para enfrentar os problemas que estavam  sua espera.
      Entretanto, ao contrrio do que supunha na vspera, acordou no dia seguinte com a cabea pesada e tonta de sono. Levou Lisa  escola e voltou diretamente para
casa. Tomou um caf bem forte na cozinha e sentou-se na sala com o jornal da manh no colo.
      De repente, a idia de passar a manh sozinha em casa pareceu-lhe insuportvel. Ia aproveitar e fazer umas compras que vinha adiando h dias. O ombro esquerdo
ainda estava ligeiramente dolorido, mas sentia-se mesmo assim com disposio para sair.
      As compras tomaram uma boa parte da manh. Passava do meio-dia quando ela foi apanhar Lisa na escola.
      - Quanto embrulho! - exclamou a menina, ao pular no banco do carro. - O que , mame?
      - So compras para a casa. Vamos desembrulhar quando chegarmos em casa.
      - Voc comprou alguma coisa para mim?
      - Dois vestidinhos de vero. E um macaco para voc usar na escola.
      - Oba! Muito obrigada, mame! Voc  um amor.
      O corao de Karen derreteu-se no mesmo instante e ela piscou para enxugar os olhos.
      - Voc tambm  um amor, corao.
      - E Matt? Voc gosta dele?
      A pergunta foi to inesperada que Karen engoliu em seco, sem saber o que responder.
      - Vamos conversar sobre isso numa outra hora.
      - Ele vai passar hoje em casa?
      - No, meu bem. Ele foi viajar e s vai voltar daqui a alguns dias.
      - Ah, que pena! Eu vou sentir saudade dele, mame. Gostei muito dos dias que ns passamos na casa dele. Eu passava o tempo todo brincando com Dick. E com Ann,
tambm...
      - Dick  muito grande para voc brincar, filha. Voc precisa ganhar um cachorrinho pequeno, que no morda de jeito nenhum...
      - Dick no morde, me. Ele  manso.
      - Eu sei, mas  perigoso, mesmo assim.
      Depois que chegaram em casa, as duas passaram uma hora experimentando os vestidos, a cala comprida e o macaco que Karen tinha comprado para Lisa. Lisa estava
radiante com os presentes e rodopiava pelo quarto com o vestido novo, como se estivesse na aula de bal.
      Entretanto, a compra que mais agradou Lisa foi o conjuntinho que combinava com um que Karen tinha. As duas agora podiam usar roupa igual, segundo a moda me
e filha.
      Karen tinha terminado de provar o ltimo vestido quando a campainha da frente tocou. Lisa foi correndo abrir.
      - Quem ? - perguntou Karen do alto da escada.
      -  um menino que trouxe uma caixa de flores.
      Karen desceu a escada com o corao  toda.
      - Olhe s, mame, que lindas!- exclamou Lisa, correndo na direo dela com o embrulho na mo.
      No interior havia um carto de Matt.
      Karen escolheu o vaso mais bonito que havia na sala para arrumar as tulipas. Estava to emocionada como presente que enxugou furtivamente uma lgrima quando
Lisa perguntou quem tinha mandado.
      - Foi Matt.
      - Ele vem hoje aqui? - perguntou Lisa, com os olhos brilhantes.
      - No. Eu j disse que ele est viajando.
      - Quando  que ele vem, ento?
      - Na semana que vem.
      s sete e meia, Karen correu atender ao telefone. Ela sabia que s podia ser uma pessoa.
      - Al?
      - Karen? Sou eu. Como voc est?
      - Estou bem. E voc?
      - Tudo em paz. Alguma novidade?
      - Muito obrigada pelas tulipas. So lindas.
      - Voc sentiu saudade de mim?
      Era a pergunta que ela temia, Hesitou um segundo antes de responder.
      - Eu passei o dia todo correndo de um lado para o outro. Fazendo compras.
      - O que foi que voc comprou?
      - Comida. E umas roupas para Lisa.
      - E nada para voc?
      - Umas botas de cano alto - disse Karen com um risinho.
      - Eu sabia...
      - Voc est gostando da?
      - Est frio e mido. Sem falar que estou me sentindo terrivelmente sozinho...
      - Isso  fcil de remediar.
      - O que voc est sugerindo?
      - Que voc procure a companhia de algum para se curar da solido.
      - Sua bandida! Espere eu voltar....
      - Olhe, eu estou terminando um bolo na cozinha. Tenho medo que queime.
      - J sei. Voc quer desligar. E eu morrendo de saudade de voc...
      - No fale assim - disse Karen com a voz comovida.
      - O que eu posso fazer?  a verdade. Estou vendo que voc quer voltar de novo para dentro da casca. Se eu passar mais alguns dias aqui, voc vai me esquecer
completamente.
      Karen ouviu o comentrio em silncio.
      - Voc j decidiu alguma coisa?
      - Matt, eu preciso de tempo para pensar.
      - Eu lhe prometo conforto e segurana. Voc no precisa ficar assustada. No sou um homem exigente...
      - Por favor, no vamos apressar as coisas.
      - Est bem. Eu vou ter pacincia.
      - Adeus, Matt.
      Ela colocou o fone no gancho e enxugou os olhos.
      Durante uma hora ficou sentada na sala, olhando estupidamente para as imagens que passavam na televiso. A cabea parecia que ia estourar. O telefone tocou
mais duas vezes, mas ela no atendeu.

      Na manh seguinte, aps deixar Lisa na escola, Karen voltou para casa com a inteno de passar algumas horas cuidando do jardim. O ombro tinha melhorado sensivelmente
e ela achou que o exerccio ia fazer bem aos msculos dormentes.
      Entretanto, ao fazer a curva na esquina da rua, levou o maior susto do mundo quando avistou o Jaguar preto parado diante do porto. Desceu na calada com as
pernas trmulas, os olhos arregalados. Matt aproximou-se lentamente e parou a um passo dela.
      - Voc no disse que ia voltar amanh?
      - Mudei de idia. Por que voc no atendeu o telefone? Eu liguei duas vezes para c...
      Ela abaixou a cabea, sem jeito, diante do olhar de. recriminao que Matt lhe dirigiu.
      - Vamos entrar?
      Matt segurou-a pelo brao e subiu os degraus que levavam  porta da frente. Ela estava tremendo tanto que no acertou a chave na fechadura.
      - Eu devo estar de volta no aeroporto dentro de uma hora - disse Matt, fechando a porta atrs de si. - Tenho apenas meia hora para conversar com voc. Eu lhe
peo, por isso, que oua com ateno o que vou dizer. - Ele passou os dedos entre os cabelos e abaixou o brao com um gesto de cansao. - Cheguei  concluso de
que s existe uma maneira de cur-la do pavor que voc sente dos homens. No adianta conversar mais sobre isso e no adianta tambm pensar que o tempo ir curar
isso sozinho. Para mim tudo depende de saber se voc gosta ou no de mim. Se voc gostar sinceramente de mim, voc ter confiana em mim. No existe outra possibilidade.
      - Eu sei - murmurou Karen.
      - Cabe a voc decidir. Eu vou estar de volta no sbado. - Ele fitou-a um instante em silncio. - No vou mais telefonar. Tudo o que tinha para dizer j foi
dito. Eu vou esperar uma resposta sua at depois de amanh.
      Karen acompanhou-o at a porta.
      - Eu gosto muito de voc, Karen. Lembre-se disso.
      Ela continuou parada na soleira da porta, os braos cados, sem conseguir mover-se dali, olhando fixamente para o carro preto que se afastou rapidamente e
dobrou a esquina. Matt lhe dera um ultimato. No havia mais prorrogao. Ela tinha que decidir at o sbado o que queria da vida. Esse pensamento comeou a assumir
uma proporo assustadora na sua imaginao,  medida que as horas passavam. Ao subir s onze horas para o quarto, aps ter posto Lisa na cama, estava uma pilha
de nervos e levou muito tempo para conciliar o sono.
      Na manh de sexta-feira, ao mirar-se no espelho do banheiro, ficou assustada com sua aparncia. Estava plida, com olheiras fundas e os lbios rachados, como
se estivesse com febre. Sentou-se  mesa do. caf, mas a comida no descia pela garganta.
      - O que voc tem, mame? - perguntou Lisa ao ver a cara de enjo que ela fez diante da comida.
      - No  nada, corao. No dormi bem essa noite, mas logo vou estar melhor.
      Lisa apanhou a mala e mostrou o caderno onde a professora lhe dera nota dez por um trabalho feito na aula.
      - Parabns, amor!
      - Vai ter um teatrinho de bonecos na escola na semana que vem. Eu posso ir, mame?
      - Claro que pode. Quanto  a entrada?
      - A professora disse que o teatrinho custa o mesmo preo que a meia entrada no cinema. Voc sabe quanto ?
      - Sei. Pode deixar que eu dou o dinheiro para voc levar.
      - Falou.
      Karen sorriu sem querer. Lisa aprendia todas as grias que ouvia na escola e, nos primeiros dias, repetia-as sem parar, em qualquer circunstncia.
      - Escute uma coisa, filha.
      Lisa encarou-a com os olhos arregalados, sem pestanejar, como se tivesse adivinhado que o assunto era srio e merecia toda a sua ateno. Karen hesitou um
instante, antes de abordar a questo que vinha debatendo consigo nas ltimas horas, obsessivamente.
      - O que , me?
      - Voc gosta de Matt?
      - Gosto muito. Ele  um amigo.
      Bom. Agora vinha a parte mais difcil.
      - O que voc diria se eu me casasse com Matt?
      - Verdade? - exclamou Lisa, com os olhos radiantes. - Voc vai casar, me? Ns vamos morar na casa dele, com Ann e Ben? Eu vou poder brincar com Dick o dia
todo? Ah, mame, que bom voc casar com Matt! Eu queria muito ter um papai.
      Karen abraou-a e beijou-a com ternura. A aceitao da menina no podia ser mais espontnea e sincera. Como seria bom viver de novo no mundo das crianas.
Tudo parecia to simples. Eram os adultos que complicavam as coisas.
      - S tem um problema, filha. Eu no vou mais dar toda a minha ateno a voc. Eu tenho que dar um pouco tambm a Matt. Voc no se importa, corao?
      - Nem um pouco, mame. Ele merece.
      Karen deu uma gargalhada descontrada, como h muito tempo no dava.
      - Bem, nesse caso, acho que podemos nos preparar para o casamento. - Ela levantou Lisa no colo e beijou-a no rosto. - Matt vai voltar hoje  tarde e eu vou
receb-lo no aeroporto. Voc no se importa de passar algumas horas na casa de Brbara?
      - Tnia est l? - perguntou Lisa com alegria.
      - No sei. Vamos telefonar para perguntar.

      O avio em que Matt viajava deveria chegar ao aeroporto por volta das cinco e vinte da tarde. Brbara felizmente no perguntou por que Karen tinha que deixar
Lisa em sua casa durante algumas horas, mas deve ter suspeitado de alguma coisa pelo sorriso que dirigiu  amiga quando esta tomou o carro correndo no porto de
casa.
      - Nossa, que pressa!
      - Estou atrasadssima, Brbara. Depois a gente conversa com calma. Muito obrigada mais uma vez. Voc me quebrou um galho!
      - At mais tarde.
      A corrida para o aeroporto foi uma verdadeira loucura. Eram exatamente cinco e trinta quando Karen trancou o carro e saiu correndo em direo ao porto principal.
No tinha percorrido cem metros quando avistou Ben em p ao lado da porta aberta do Jaguar.
      - Matt!
      Seu grito foi to alto que algumas pessoas na calada viraram a cabea para trs. Que importncia isso tinha? Era seu destino que estava em jogo.
      Matt j estava dentro do carro quando ouviu o grito. Ele se voltou e avistou-a no outro lado da rua.
      - Karen! Voc veio me esperar no aeroporto?
      Ela balanou a cabea com um n na garganta. Atravessou correndo a rua e Matt a recebeu de braos abertos, com um sorriso nos lbios.
      - Voc veio de carro?
      - Deixei no estacionamento.
      - E Lisa?
      - Est na casa de Brbara.
      - Vamos passar l e peg-la. Podemos jantar os trs juntos. Ben vai levar o seu carro. Venha aqui comigo - disse Matt, abrindo a porta do Jaguar.


      Captulo IX

      A cerimnia do casamento foi breve e impessoal. Fotografias foram batidas na porta da igreja, no jardim da casa e na sala de msica. Champagne correu a rodo
antes e depois do jantar oferecido aos parentes e amigos ntimos e uma salva de palmas irrompeu na sala quando Janine entrou com o bolo de casamento no alto de uma
travessa de prata, um bolo gelado com marasquino e frutas secas.
      Karen estava com um vestido bege de crepe da ndia e tinha os cabelos presos no alto da cabea com um grampo de prata cravejado de diamantes. Lisa estava com
um vestidinho azul, de tafet brilhante, e no largava o mao de flores que recebera na sada da igreja. Ela sorria e conversava com todo mundo, como se no coubesse
em si de alegria.
      O caf e os licores foram servidos no salo de msica. s dez horas todos os convidados tinham se retirado, inclusive Grace, que levou Lisa consigo para passar
a noite em casa de Janine.
      - Mais um gole de licor?
      Ann tinha se recolhido e os dois estavam sozinhos na sala.
      - No, muito obrigada. Por hoje chega. Estou com a cabea zonza das taas de champagne que tomei durante o jantar, sem contar que estou praticamente em jejum.
      - Voc no comeu nada?
      - Estou sem fome.
      Como acontecia todas as vezes em que estava muito emocionada com algum acontecimento, Karen perdia o apetite e a comida se recusava terminantemente a descer
pela garganta. Limitava-se por isso a beliscar alguma coisa. Naquela noite ela tinha comido dois salgadinhos e um sanduche de ovos cozidos que Ano tinha feito com
a receita que Janine lhe dera.
      - Voc est com frio? - perguntou Matt, ao notar que Karen esfregava os braos com nervosismo.
      - Um pouquinho.
      - Vou acender a lareira.
      A lenha estava arrumada no interior e bastava apenas pr fogo.
      Depois que as labaredas pegaram e que a madeira seca comeou a crepitar alegremente, Matt regulou a passagem de ar e colocou a grade de metal na frente, a
fim de proteger o tapete de alguma fagulha. Em seguida, instalou-se no sof, de frente para a lareira, com as pernas apoiadas num banquinho de madeira.
      - Venha sentar-se aqui - disse, fazendo sinal para o lugar vazio ao seu lado.
      Karen levantou-se da poltrona e sentou-se ao lado dele, numa atitude reservada, de pernas cruzadas, as mos entrelaadas em cima do joelho.
      Matt levantou-se mais uma vez e foi trocar a fita no gravador. No momento em que voltou, Karen notou com o canto dos olhos que ele tinha soltado o n da gravata,
aberto o colarinho, retirado o colete e desabotoado os primeiros botes da camisa.
      Ele parecia perfeitamente  vontade no seu papel de marido. Karen, no entanto, estava uma pilha de nervos. A expectativa do que estava para acontecer era uma
verdadeira tortura.
      - Est melhor agora? - perguntou Matt, separando as mos dela que estavam cruzadas em cima do joelho e beijando os dedos com carinho.
      - Estou.
      No momento em que Matt se inclinou para beij-la no colo descoberto, Karen estremeceu como se o contato ardesse sobre a pele.
      - O que foi? Voc est toda arrepiada...
      - No sei o que tenho. Eu no devia ter bebido em jejum...
      - Isso passa. Voc est nervosa com toda essa correria.
      - Pode ser.
      A msica melodiosa que vinha dos alto-falantes espalhados pela casa criava um clima de intimidade na sala vazia, como se os dois estivessem isolados do resto
do mundo.
      - Eu gosto dos seus olhos. So profundos como o mar, claros e transparentes quando voc sorri, mas escuros e turvos quando voc se sente insegura e assustada.
      - Como agora? - disse Karen.
      - , como agora. Do que voc tem medo?
      As pestanas compridas piscaram nervosamente e ela passou a lngua sobre os lbios secos.
      - No sei. Realmente no sei.
      Matt correu os dedos por entre os cabelos louros e soltou os grampos que os prendiam no alto da cabea. Os cachos caram como um cortinado em cima dos ombros
nus.
      - Seus cabelos so finos como fios de seda.
      Ele enrolou os cachos. nos dedos e beijou-a em cima dos olhos.
      Percorreu em seguida a face quente com os lbios e mordeu-a de brincadeira na boca.
      Excitada e arrepiada pelo contato ntimo do beijo, Karen mal percebeu o instante em que Matt desabotoou o vestido e retirou lentamente o suti, de maneira
a expor primeiro um seio, depois o outro.
      - Por favor, Matt! Aqui no...
      Matt ignorou seu protesto e ajoelhou-se em cima do tapete a fim de soltar a fivela dos sapatos. Aps retirar os dois ps, ele lhe deu a mo e puxou-a para
si em cima do sof.
      - Eu gosto de voc e desejo que voc seja minha.
      - Vamos para o quarto. Algum pode nos ver...
      - Ann j foi dormir. Ns estamos sozinhos em casa.
      A princpio, os beijos e as carcias foram temas e delicadas. Logo depois, contudo, tomaram-se vidas, possessivas, ardentes. O corpo dela estava em fogo e
um langor a envolveu completamente, deixando-a indefesa e sem foras para nada. Mesmo que quisesse, no podia se defender. Mal teve conscincia do momento em que
Matt retirou as ltimas peas do vesturio e atirou-as em cima do tapete. Foi somente quando a pele nua roou sobre o veludo que ela acordou, sobressaltada.
      Sentou-se no sof de olhos arregalados e percebeu que estava completamente nua na sala de msica. Instintivamente, procurou cobrir-se com a manta que estava
em cima da cadeira.
      - Tire minha roupa - murmurou Matt no seu ouvido. - Assim ns dois ficamos nus...
      Ela ficou repentinamente rgida.
      - Eu no consigo.
      - Tente.
      Ela estendeu o brao e soltou com os dedos trmulos os botes da camisa. Em seguida, tentou abrir o zper da cala, mas recuou no mesmo instante.
      - Eu no sei - murmurou sem jeito, com a expresso assustada de uma criana pequena.
      - Deixe que eu tiro.
      Ele despiu-se rapidamente e atirou a roupa em cima do tapete. A lenha na lareira tinha queimado rapidamente e somente restavam as brasas vermelhas em cima
da grade de ferro.
      Matt embrulhou-a na manta de l que estava em cima da cadeira e levou-a no colo em direo ao quarto de dormir.
      Karen passou os braos em volta do pescoo dele e afundou o rosto corado no peito musculoso. Estava terrivelmente nervosa e as lgrimas rolavam pela face,
contra sua vontade.
      - Por que voc est chorando? - perguntou Matt, ao deit-la na cama.
      - No sei. De alegria, talvez. Ah, Matt, eu custei tanto a ficar boa...
      - Voc gosta de mim?
      - Muito. Voc nem faz idia.
      Ela segurou a cabea dele com as mos em concha e fitou-o no fundo dos olhos, sem pestanejar. Matt sorriu e ela abaixou a cabea sem jeito.
      - Ah, voc quase me deixou louco! Eu sofri como um co nas ltimas semanas. No sabia se voc ia aceitar ou no meu pedido.
      - O que voc faria se eu no tivesse aceito?
      - Ah, nem me fale! Talvez empregasse a fora bruta...
      - Mas voc tinha Berenice na reserva.
      - Berenice nunca significou nada para mim. Ela foi apenas um objeto decorativo na minha vida, mais nada.
      Horas mais tarde, aninhada nos braos dele, Karen deu um sorriso de satisfao. Ela no passaria mais as noites em claro, a partir daquele dia. O pesadelo
que ela tanto temia se desvanecera com os primeiros clares da madrugada e o fantasma do passado estava definitivamente enterrado nas profundezas da memria e no
voltaria mais para perturbar suas noites.


Fim
